15. ESTAÇÕES DO HOMEM - 2000

    Preciso concordar com o consagrado professor José Édil, quando afirma no prefácio: "Rossyr chega a um estágio verdadeiramente magistral". Estações do Homem resulta de 24 anos de esforço, aprendizagem e exercício poético. Treze outros livros antecederam a este. As estações do livro: cruciário, álbum de família, os sublevos e pássaros frutíferos, testemunham este empenho e possuem todo meu ardor e paixão pela poesia.
Esta centena de poemas, se fossem por meu amor à poesia, mudaria o mundo e as pessoas. Seríamos todos outros, melhores com nossos pares; mais exigentes com os que administram a vida neste planeta globalizado e injusto: Arcos-íris para uns poucos e trevas para o resto. Este livro luta para mudar isso em cada um de nós.

 
 

A reflexão como parada obrigatória

Em abril de 1987 apresentei o Rossyr Berny a um dos grandes críticos do Neo-Realismo português, também excelente poeta, Alexandre Pinheiro Torres (professor da Universidade de Cardiff, na Inglaterra), quando este andava em Porto Alegre proferindo uma série de palestras na PUCRS.
O Rossyr vinha em uma caminhada difícil, como a de todo escritor que se inicia sem os favores da grande publicidade; mas percorria uma trajetória segura, desde 1976, com seu Homem-Autômato, cujo prefácio era de Mario Quintana. Talvez cometa heresia e talvez ofenda as inumeráveis viúvas, hoje, do grande Poeta alegretense, mas, então, o Quintana não estava com toda aquela aura que anos mais tarde, merecidamente, veio a ter — o que já são outros quinhentos... Conterrâneos gabrielenses, vim a conhecer o Rossyr em Porto Alegre, por intermédio do Professor Jorge Campos da Costa, ali por 1977, quando costumávamos reunir-nos nas noites de Portinho em bares os mais diferentes, muitas vezes na companhia de outros professores e intelectuais, como Janer Cristaldo, crítico sempre agudíssimo e feroz, mas excelente companheiro para uma prosa inteligente.
Assim, entre aquele 77 e o 86, tirante o período em que cursei o doutorado no Rio, eram freqüentes os encontros com o Rossyr, as trocas de opiniões sobre literatura em geral, e poesia, em particular, os comentários sobre a situação sócio-política brasileira — ainda pensávamos ser capazes de endireitar o mundo e que a democracia resolveria o que ficara por fazer..., o que era necessário ser mudado no ensino em todos os níveis e no superior, em particular, em fim, tudo isso que gerações vêm fazendo nas longas noites em que os bares, à meia-luz, estão de portas abertas a espera dos reformuladores, e mesmo os garçons são cúmplices calados para as tiradas de espírito já envolvidas por alguns vapores do álcool.
O Pinheiro Torre leu atentamente os poemas que o Rossyr lhe ofereceu e comentou com seu jeito particular que dá uma certa impressão de estar sempre em desacordo com o mundo: "Zé Édil, este é um poeta maduro. Procuro estar informado do que acontece no Brasil e nunca ouvira falar sobre ele. Como pode ser?" "Para tua pergunta, ó Pinheiro Torres, não tenho resposta — ou não quero ter... Mas não me surpreende tua avaliação, pois creio ser o Rossyr um Senhor Poeta."
Quando os apresentei num concorrido jantar na Casa de Portugal, e o Pinheiro Torres folheou o livro que o Rossyr lhe entregara autografado, parou no poema Deus está só. Leu e releu-o para si, e então chamou a atenção do grande número de escritores ali presentes. Leu-o em voz alta e fez um elogio que deixou a todos surpreendidos pela franqueza.
Igualmente espantado pela firmeza do Pinheiro — e não pelo elogio — desafiei-o a escrever e assinar embaixo o que afirmara. E ele não hesitou, escreveu, assinou e mandou dar publicidade: Este poema só, isolado, vale muito mais que toda a obra do (...) junta. Você, Rossyr, é Poeta mesmo, porque alguém que escreve "o Criador ri por nada," está dentro da Casa da Poesia.
Assinou e datou: Alexandre Pinheiro Torres, Porto Alegre, 2 de abril de 1987.
Por uma questão de ética, Rossyr nunca divulgou o nome do poeta citado, que todos sabemos ser um dos mais reconhecidos do Brasil. Mas está aqui, na fotocópia que o Rossyr me passou, e nunca divulgou.
Pinheiro Torres, por formação um humanista, não poderia deixar de valorizar uma poesia como o Rossyr Berny, que sempre encontra tempo e lugar para falar sobre o homem em suas circunstâncias as mais diversas e, mesmo, opostas: do riso à lágrima, da paixão ao amor, do gozo ao sofrimento, do trabalho ao lazer, da inquietação ao sossego. Atento à realidade, o Poeta não se compraz com e na crítica, mas tematiza esta realidade de forma objetiva, sem esquecer de que seu trabalho, enquanto Poeta, deve ser feito com e na palavra. Quer dizer, não por estar atento à realidade, principalmente a do homem, e por tematizá-la em seu fazer poético, o poeta abdica da poesia. Pelo contrário. Assume-a de forma cabal, trabalhando a palavra, quer como significado, que como significante, vale dizer, atento para o conteúdo sem nunca descurar do continente.
Então, a palavra de Rossyr é poética, porque, com ela e por ela, o Poeta (re)cria realidades objetivas em convite permanente a seu leitor virtual para que, com ele, exerça essa singular função de dar, cada vez mais, um sentido singular ao mundo.
E se Rossyr Berny tem sido Poeta da e na palavra, neste estações do homem chega a um estágio verdadeiramente magistral, conseguindo uma síntese que, se não estou equivocado, constitui o a apanágio da Poesia propriamente dita — aquela relação íntima entre ritmo e sentido; a valorização do léxico mesmo em detrimento da sintaxe; as metáforas provocantes que só consigo têm compromisso, como nessa epígrafe a "pássaros frutíferos":

IV. pássaros frutíferos

filha dileta da criação
é a luz
humana em todas estações
parceira para pleno parto
matrizmotriznutriz
luz permanente
às estações do homem

Sem uma análise detida, até por não ser o lugar apropriado, não será demais observar que a metáfora no título "pássaros frutíferos" é daquelas que levou Mikel Dufrenne, em seu antológico O Poético, a afirmar:
...O esquema usual da informação é transformado, a estrutura da frase alterada por múltiplos processos: invocação, inversão, aposição, supressão da pontuação. As palavras são instigadas a formar alianças imprevistas e escandalosas: o pastor promontório, the black. bat night... A metáfora apresenta-se aqui em estado bruto, em sua forma mais provocante, uma vez que cada palavra cambia brutalmente seu sentido com a outra com à qual vai de encontro, sem que tenhamos o lazer de descrever ou justificar a comparação. (1)
E metáforas com esta há inúmeras nos excelentes poemas do estações do homem, título criativo a remeter para as estações do Cristo, em seu calvário, como são inúmeras as construções em que a síntese fica a dever ao léxico, como no matrizmotriznutriz na mesma epígrafe, igualmente uma construção exemplar em sua exuberância de ritmo e de musicalidade.
Sobre Rossyr, felizmente, os principais ensaístas na/da Província de São Pedro já falaram. Baste, pois o que aqui digo. O leitor terá mais proveito ao deliciar-se com poesia de qualidade admirável ao ler cada frase poética que adiante vem.

José Édil de Lima Alves

O alvo da Poesia

Se o alvo da poesia continua
a ser o sentimento e o prazer dos
olhos de quem harmoniza a linguagem
em si, espera-se já — murmúrio, regato —
que a poesia rossyriana designe
vocábulos pictóricos ímpares.
Sucintamente, Rossyr desmancha
os assoalhos do pecado em sua
espacialidade poética e circularidade
em estações do homem, quando diz:
grávida/ põe-se a vida no porto/
parto de altíssimo risco/
cais propício a piratagens.
A metonímia requintada, neste
poema, é cubista porque implode a
forma gramatical e explode a luminescência
da sintaxe poética. É necessário,
para tanto, abarcar num pedaço
do futuro e saber que Rossyr retesa
o arco-íris e suas estações fremem
quando jardina o poema acorda
bamba: ruminar os dias/ sem engolir/
nem vomitar
Que felicidade saber que em
um verso a verdade do poeta
é sempre nova.
A quarta dimensão da possibilidade
lingüística está no aforismo, e só Oscar Wilde
teria a mesma competência, se recitasse:

congresso nacional brasileiro:
ferida maior que o corpo

Rossyr Berny é um artista que esculpe
a palavra com a alma do filósofo e deixa
nas páginas deste belo livro um lembrete
que navega pela precisão pessoânica que
conduz: ...ou o homem hoje/
morre cumprindo vida deficitária/
ou enlouquece e se salva


Zé Augustho Marques - Crítico de Arte e Escritor

 
 
 
 

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