Rossyr Berny - Mostra de Poemas - Poesia Amorosa  
     
     
 
     
     Poesia Amorosa  

matemática do amor

conhecer-te foi amar-te 100%
e pensar em ti 60 vezes por minuto


tu estás em mim sempre
até nas coisas mais absurdas
sem nenhum sentido lógico.
e deve ser assim o amor
dos loucos e dos astronautas


cedo me ensinaram geometria
álgebra, aritmética e trigonometria
aprendi a calcular o ângulo seno
o coseno, o cateto e a circunferência
mas nunca pensei ser possível
aprender algum amor matemático


tu estás em mim 3.600 segundos por hora
86.400 vezes por dia te recordo
e te venero 604.800 vezes por semana


penso em ti 60 vezes por minuto
te quero 24 horas por dia
e te amo 31.536.000 segundos por ano


é uma divina loucura matemática
e somente 4 loucos amariam assim


os sábios, os matemáticos, os poetas — e os apaixonados

bilhete


estou indo embora neste bilhete

vou com os ventos, granizos e eclipses
que incendiarão este papel depois que leias
— depois que te assustes com ele


ou era isso mesmo que esperavas de mim?
um bilhete dizendo que vou
— sem a fúria das discussões de casais
polícia, delegacias de mulheres


vou mais do que pareço ir
porque vou resignado
em paz
— quase em festa


também triste
vou ser fotossíntese ao inverso
poluição de carros nos engarrafamentos
buracos na camada de ozônio


sinto-me o estragado relógio de deus
que só marca noite noite noite
deixando os dias os dias os dias
perdidos no dia em que nos amamos


II
estou indo embora neste bilhete


arrastado por tempestades e estações
para as estações escuras do arco-íris

vou varado no peito
pelas lanças dos pontos cardeais
que me jogam pedaços aqui
ali
pedaços nas galáxias ainda secretas


abandono a ferocidade do lutar
abandono o front
deponho armas ao inimigo
e suplico o tiro de misericórdia


III
estou indo embora e me levando comigo
tristíssimo
porque nem saudades de ti eu levo

fogueira negra

no casulo dos dias de deus
só o amor tem sido noite


quando virás
desencantar-me desta estátua
em que tua ausência me plasmou?


II
mas não coincidam os foguetórios
por tua volta
com a fogueira negra
do pataxó jesus em brasília


III
pois sei que amanhece
e teu beijo bate à porta

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Este poema teve sua versão ilustrada premiada na XX Exposição de Poemas Ilustrados, com pintura de Dulce Magalhães em Porto Alegre, 13/05/97

declaração de amor

se vida há
houve antes teu acordar


a criação inteira
deu-se por tuas mãos


depois de toda obra pronta
criaste o criador

acampa nos meus dias

chega sem medo ou pressa de partida
faz de minha vida teu solo e estrada


acampa nos meus dias
podes cravar estacas e armar tua tenda
e no martelar de tua construção
não temas ferir-me


estou acostumado ao martelo e a pá
me cavando, cravando pregos e esperanças
e quando alguém acampa em mim
penso que terei
apenas algumas cicatrizes a mais


chega sem medo ou pressa de retorno
em mim sempre estarás segura das geadas
e vendavais que surgem do desamor


tudo o que em mim foi plantado
frutificou e alimentou risosarma tua morada em minha terra e carne


toma da água vertida da fonte bucal
e corre e bebe nas matas de meu corpo


busca de minhas entranhas
a lenha seca a tua fogueira
para afastar fantasmas e feras
das madrugadas de insônia e boemia


tua chegada em minha sombra
plantou-me um sol esquisito,
que gela e estanca a respiração


vem, acampa nos meus dias