dos homens que sou
dos
homens que sou
o menos humano
lambe as feridas da criança pobre
para que adormeça
dos homens que sou
o mais pacífico
faz greve de fome por liberdade
(vendado no meio do trânsito intenso)
dos homens que sou
mais escuro
incendeia o planeta com as luzes todas
que os injustos apagaram até aqui
dos homens que sou
o mais precário
é operário de dezoito horas diárias
(mas dono das chaves da justiça final)
dos homens que sou
o menos amoroso
é todo tão teu
que será até quando
nem eu mais for meu
II
dos homens que ainda serei
o menos justo já arquiteta
infálivel
a multiplicação dos pães e dos peixes
para que a maior vitória
seja sempre a igualdade
entre os homens de boa vontade
ato público na história
brasileira contemporânea
quando destruíram a liberdade
foi época
da construção de barricadas
com nossos corpos de estudantes
agora
que só plantam na mesa a fome
reerguemos barricadas
com nossos corpos de operários
franco-atiradores
sempre em tocaias
os atiradores
são francamente pacientes
se o alvo móvel for humano
ou animal
tanto faz
errarão
nunca
se o alvo for a paz
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(poema classificado em 1° lugar entre 3.200
concorrentes no projeto poemas no ônibus 1996/97, porto
alegre/rs)
poeta força-tarefa
os
dias e as dores dos dias
cobram à exaustão o meu ofício:
vim aos mundos ser poetas
ainda que em passos recentes
tenha sido fungo ou bactéria
árvore lodo água montanha ou gramínea
sou poeira cósmica depois de ter sido o big bang
manhãs e adormeceres rebentam-me os ouvidos
pulsos e pulsares do peito me anunciam guerreiro
a lutar pela salvação do homem
impuro ou purificado
tenho texto na testa em letra escarlate:
venho às vidas e aos mundos ser poetas
II
é por fúria de justiça que amo o ser
humano|
poeta de ofício
zelo para que acordes em paz
ao teu digno dia de trabalho e amor
acaso me descuide de tanto zelo
acordarás sem a honra do teu labor
nem a amada no leito a acolher-te
por isso a permanente vigília
o verso e a voz em riste
para iguais conquistas de todos
compartilho do teu largo riso por estares feliz
mas culpo-me acaso a felicidade não te venha
III
guilhotina estas mãos escrevinhadoras
se elas não forem os poemas
que te libertarão da miséria e das desigualdades
animal furioso ou homem bom
defendo com adagas de luz
e força-tarefa
a segurança da tua vida de justo
IV
os tempos e as vozes dos tempos
rebentam-me os ouvidos
cobrando os afazeres de meu ofício
o cristo e os cães do peito
gritamgritam para que eu te acalme:
venho às vidas e aos mundos
ser os teus poetas-de-guarda
queda-de-braço
meço forças comigo
a mão direita e a esquerda
meu peito e eu
meu coração e eu
a perna direita e a esquerda
meço forças comigo
meus ombros e eu
no escuro no sonho no espelho no bar
homens se encaram e se decifram
meço forças com deus
queda-de-braço
olho na pupila do olho
confissões
e acerto de contas
quem chorar primeiro
paga a cerveja dos dois
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(classificado entre os primeiros lugares dos 2.500
concorrentes no projeto poemas no ônibus 1993/94, porto
alegre/rs)