Dora Wainberg

Dora_Wainberg

Sobre o autor:

Já havia 10 anos que Sônia Dunaiewski estava casada e ainda não tinha filhos. O médico dizia que era o marido quem não os podia gerar. Como estava certa de que não queria viver sem filhos, separou-se daquele homem e casou-se, logo depois, com um jovem solteiro, muito bonito. Dessa união, em 1910, nasceu Hona. O marido trabalhava em uma loja e Sônia cuidava da criança; viviam felizes. Entretanto, acometido por uma forte pneumonia, ele faleceu prematuramente.

O menino estava apenas com um ano e oito meses. Vivendo na Rússia, viúva, com um filho pequeno, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, era difícil um bom prognóstico para aquela mulher. Contudo, quando Sônia via-se em apuros, era de extrema valentia.

Conforme as condições de que dispunha, abriu um pequeno restaurante, no qual a maioria de sua freguesia era composta por conhecidos. Precisava de algo para sobreviver e outra coisa não sabia fazer.

Era 1914 e a Primeira Grande Guerra iniciava.

Marcos Gendelman, um ourives que havia emigrado da Polônia, passou a frequentar o restaurante e aproximou-se de Sônia. Ele era solteiro e tinha oito anos a menos do que ela, que estava com 41. Após algum tempo, ele adoeceu: sofria de problemas renais. Ela, sensibilizada, foi em busca de uma requisição para hospitalizá-lo. Comovido e assustado, Marcos, chorando disse: “Se tu queres me matar, me bota na rua. Não há aquecimento nos hospitais, eu tenho febre e não posso ficar num lugar tão frio”.

A compaixão de Sônia não permitiu que ele fosse entregue à própria sorte e, assim, ao longo de três meses, o tratou como trataria a um irmão. A dedicação trouxe a cura, a gratidão de Marcos e um pedido de casamento. Quando eu nasci, em 11 de agosto de 1920, numa cidadezinha de nome Lubni, no estado russo de Poltava, Sônia, minha mãe, já tinha 42 anos e achava que não teria mais filhos.

Nasci Dina Gendelman. Ao longo de minha existência, vi Hitler cair; vi nascer o Estado de Israel; extinguir o Comunismo; a erradicação de doenças graves e tantas outras coisas. Por tudo isso, vale a pena ter esperanças.

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Livros:

A Imigrante

Prefcio do livro A imigrante:

Disse o poeta, certa vez, que as histórias do povo judeu são muitas, mas que são poucas aquelas que são registradas, aquelas que vão para o papel. Dessa forma, em uma cultura milenar, que tem como característica a valorização da palavra falada – em detrimento da escrita –, o surgimento de um testemunho como o de Dora Wainberg é, mais do que a história de uma vida, o retrato de toda uma geração de pessoas de uma mesma civilização, há milênios expatriada, que acabou encontrando, em terras brasileiras e gaúchas, um lar terno e acolhedor. É a partir destas virtudes absolutamente distintas que vem à tona o comovente relato de A imigrante.

Deste viés visivelmente memorialístico é possível experimentar sentimentos ao mesmo tempo complementares e controversos: na mesma medida que tal relato parece ter sido constituído de forma jubilosa, dada a forte carga emotiva do tom de desabafo que permeia o todo do discurso, como quando a autora trata das alegres chegadas dos vários filhos e netos; igualmente, é possível de se notar, pela dramaticidade das histórias narradas, uma veia lastimosa, melancólica, por questões como as perdas de tantos entes queridos, ao longo de décadas de vida.

Eis aqui, afinal, a trajetória de uma mulher que buscou o conforto e o amor de seus próximos e sofreu quando eles foram embora, que construiu um lar em uma terra distante e se viu como uma estrangeira em seu torrão pátrio, que viu fenecerem utopias e renascerem esperanças, e que, enfim, viveu tudo e atravessou a fronteira da existência vulgar. É essa a história que Dora Wainberg deseja passar para as gerações que darão sequência a sua especial linhagem, é a sua vida incomum que ela conta em A imigrante.

Gustavo Saldivar
Professor de literatura

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