:: 52ª Edição da Feira do Livro::





ROSSYR BERNY
Livro: Construtores de precipícios

Rossyr Berny é escritor, poeta, editor e jornalista formado pela PUCRS e Professor pela “Faculdade de Formação de Professores São Judas Tadeu. Também pela PUCRS é mestrado em Teoria da Literatura.

 

ROSSYR BERNY
Rossyr Berny


Nesta obra Rossyr Berny reúne três décadas de poesia social, engajada, esgrimindo seu verso poderoso por um mundo melhor, mais justo. E com profundo rigor estético e ternura humana.

Belicocidades

Melhor o estado de coma
que o estado de guerra

O coma
por ser provisório e letárgico
A guerra
por ser permanente explosão
Contínuo descarrilar da paz




Amorosidade e questão social


Vendo que não voltas
vou a ti
Sei que o verão é tua estação preferida
e levo-te em pacote de presente
Ficam-me no corpo
a primavera, o outono, o inverno

Vendo que não voltas
vou a ti
Sei que a visão é o sentido que preferes
e levo-te com zelo nas mãos em concha
Guardo comigo o que descartas:
o toque, o cheiro, o som, o sabor

Sei que o azul é tua predileção
e levo-te em cesto encantado
Ficam as outras cores do arco-íris
em meus olhos de paixão

Sei que preferes o amanhecer
e levo-te em caixas de bombons
Guardo comigo os ares da tarde,
o sol poente, a madrugada, as estrelas

Vendo que não voltas
vou a ti
Sei que é do ouro o brilho que preferes
e entrego-te em pesados baús
Guardo comigo os metais de outros encantos

Sei que o dia de luxo é teu momento dileto
e ofereço-te em bandeja de muitos quilates
Fico com o que não carece brilhar

Sei que preferes continentes para domínio
e ofereço-te cinco maravilhas
Fico com barcos de papel e nascentes de rios

Vendo que não voltas pra casa
vou a ti
Sei de tua preferência pelo paraíso
e ofereço-te com um beijo de lava-pés
Fico com purgatório e inferno
que me ensinaram perseverar e perdoar

Vendo que não voltas, por esquecimento,
deixo-te com tudo o que te ofertei
A ti interessa o brilho pronto mas falso

Não serias parceira a fazermos das noites geladas
o dia de sol que busco para todos

O amor transforma sobressaltos medrosos
em mesas-bem-posta aos que têm fomes















Olhos de Deus e de Alá


Do alto de casa vejo a cidade onde moro
Morros, palacetes convivem ao seu modo

O corpo citadino é perfeição divina
Cada pessoa é célula da cidade
Cidades, células do mundo

Relógio perfeito
o planeta passeia no pulsar de cada ser

Inalterável rota
no vibrar de cada humano
Independem da língua em que pulse a paz

Este, o sonho

II

Aqui da tevê de casa, rádios, jornais
mostram o mundo que se despedaça

Olhos da tevê desnudam olhos agônicos
de crianças palestinas, israelenses,
líbias, sírias afegãs, russas
Olhos são círios incendiados por mísseis

Olhos de Deus e de Alá
Onde estão que não pacificam guerras?

Parecem cegos de nascença


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