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Caminho de Compostela

Josiane Paraboni é natural de Rolante, RS. Desenvolve com grande prazer trabalhos como artista plástica e fotógrafa e está por concluir o Curso de Terapias Expressivas no Centro Universitário da Feevale, em Novo Hamburgo, RS.

Josiane Paraboni
Josiane Paraboni

“Sempre me senti neste mundo, como se fosse de outro lugar. Levei muito tempo para entender o que estava fazendo aqui. Graças a Deus o Caminho me permitiu encontrar o meu lugar neste plano. Agora entendo que o que falta muitas vezes para sermos felizes é nos conhecermos melhor: sabermos o que temos de bom e reconhecermos o que temos a melhorar. E que, no decorrer da vida, Deus coloca as pessoas certas no caminho da evolução”.
Este relato da viagem a São Tiago de Compostela, visa passar um pouco da experiência de uma peregrina: seus anseios, buscas e aprendizados que teve durante a caminhada, bem como algumas dicas e informações para os que se interessam pelo “Caminho” ou até mesmo desejam fazê-lo algum dia.
Foram percorridos 800 km a pé, saindo da França e atravessando o norte da Espanha, em 30 dias de muito crescimento espiritual e cultural, pois além dos momentos de reflexão, a Espanha é um país maravilhoso que guarda muitas riquezas e histórias, em cada região. Por onde se passa se aprende um pouco mais sobre seu povo, cultura e gastronomia.
A conquista de 800 quilômetros
Bem verdadeira é a máxima em que nos tornamos seres realizados: quando temos um filho, plantamos uma árvore e publicamos um livro.
Josiane Paraboni faz mais do que isso se entendermos que seu livro tem a riqueza mística superior ao percorrer os 800 quilômetros do Caminho de Santiago de Compostela. A conquista espiritual a diferencia do referido pensamento de auto-realização.
Caminho de Compostela – O grande aprendizado, pela leitura, nos parece ser uma pílula mágica que nos catapulta a um estágio humano superior.
Cada bolha nos pés significava-lhe a abertura de um novo canal de entendimento da vida. Com isso não ganhava apenas ela, uma luz maior. Mas todos os que compõem o círculo de seus dias, de seu cotidiano, de seu universo, em suma.
Josiane Paraboni conquistou mais do que 800 quilômetros, glorificou-se em sua renovada fé; percorreu, enfim, um novo caminho de esclarecimentos, criando poentes. Deixou em seu rastro, simbolizado por várias bolhas nos pés, tudo o que não era bom.
Trinta dias construíram uma nova mulher, um novo ser filho de Deus.
Quem ganha com a vitória de Josiane Paraboni, além dela? Todos os que tiverem em mãos este Caminho de Compostela, pois também conquistarão um grande aprendizado.
POR QUE FAZER O CAMINHO DE COMPOSTELA?
Desde que me percebi neste mundo, tive vontade de saber o que estava fazendo aqui, quem eu era e o que eu tinha por aprender. E o Caminho de Compostela seria a oportunidade de encontrar estas respostas.
Depois de ter tido algumas informações sobre o caminho, decidi que realmente queria fazê-lo. Pedi ao meu esposo que comprasse minhas passagens. Ele falou que achava que era loucura minha, mas tudo bem, se era isto mesmo que eu queria, não teria problema.
Depois desse dia, tudo parecia estar voltado para o caminho. Meus amigos, que ouviam falar, davam-me recortes de jornais, revistas, sites. Era gostoso sentir que todos já estavam torcendo e felizes por mim, vibrando comigo cada momento. Isso, com certeza, me daria forças durante a caminhada. Na Universidade, uma de minhas professoras já me chamava de Josiane de Santiago, e dizia que na volta não poderia esquecê-la, pois queria saber de tudo.
Alguns que nunca tinham ouvido falar sobre o caminho, queriam saber o que era este tal caminho. Achavam que eu pudesse estar cumprindo alguma promessa ou coisa parecida. Dizia então, que era apenas uma experiência de vida a mais que eu queria ter. Mas, comigo tinha algumas razões especiais das quais vou comentar agora. Além de buscar algumas respostas, como já falei, tinha ainda mais três motivos importantes: perder meus medos; não me sentir tão dependente quanto estava me sentindo. Pois, depois do meu casamento, tornei-me cada vez mais dependente, tanto financeira quanto afetivamente. E com o caminho, acreditava poder resgatar um pouco deste meu eu perdido até então. Voltar a ser aquela menina metida e corajosa que já havia sido. O outro motivo da minha viagem era perder algumas manias adquiridas com o passar do tempo das quais eu não gostava em mim. Achava que me atrapalhavam no convívio com as pessoas e me tornavam, às vezes, meio chata.
Em outros momentos, quando falava da viagem, muitos diziam que, tudo o que eu queria encontrar, já estava dentro de mim. É, eu já sabia disto, todas as respostas estão dentro de nós. Mas na teoria isso é muito fácil de falar, porém, na prática, não é bem assim, pois nem sempre, somos sábios o suficiente para percebê-las sozinhos ou, até somos, mas precisamos de muito tempo para descobri-las.
Tinha certeza de que o caminho iria me proporcionar muitos aprendizados num tempo mais curto, e isso era o que me impulsionava. Sempre me senti diferente de muitas pessoas, sempre gostei de fazer coisas diferentes, enfim, sair do padrão. Também já sabia que a felicidade não era ter o melhor carro, ou a melhor casa, trabalhar o dia todo e sentir que não havia feito nada. Sempre busquei encontrar uma razão maior de ser e de viver.
Porém nossa sociedade nos conduz para um caminho diferente; somos cobrados a cada instante a sermos até mesmo aquilo que não queremos ser, e com o passar do tempo ficamos cada vez mais longe de cumprir nossa missão aqui na terra. Fazem-nos acreditar que só é feliz aquele que alcança um certo padrão de vida ideal para viver. Será que é realmente só para isto que estamos aqui?
Por que então nos deparamos com pessoas que têm tudo, e são infelizes e depressivas? E por outro lado, outras que pouco têm, com um sorriso largo estampado no rosto. É claro que o contrário disto também existe. Por isso repito a mesma pergunta: o que estamos realmente fazendo aqui? O que nos falta, então, para sermos felizes?
Essa era minha inquietude. E acredito que todos nós, em algum momento da vida, buscamos estas respostas. Todos também sabemos que, antes de nós, muitos já passaram e à nossa frente, muitos passarão. O que é mesmo que estamos fazendo aqu@ýïð<T€ Apesar de vivermos num mundo tão grande, repleto de pessoas, sentimo-nos muitas vezes sozinhos. E embora a solidão tenha um lado negativo, eu já a vejo como algo de que precisamos de vez em quando, para que possamos encontrar nosso verdadeiro eu, nossa essência. E esta era uma necessidade minha: ficar sozinha para encontrar-me comigo mesmo, porém me perguntava: – Por que precisava fazer esta viagem? Ficar tão longe das pessoas que amava? Por que não podia fazer esta busca, no cotidiano normal da vida?
Porém, minha intuição dizia, que fazendo o caminho seria melhor e que era chegada a hora de ter este tempo para mim, como se fosse um renascimento. Sim, era assim que eu interpretava minha viagem, como um renascimento. Era preciso cortar o cordão umbilical, com tudo e com todos, para então passar por este processo. Repensar novas idéias e valores. Conhecer novas pessoas com outras experiências de vida. Sabia que tudo isso seria muito importante para o meu futuro dali em diante. Depois do caminho, tinha a certeza de que algumas coisas iriam mudar, pois teria outra visão de mundo.
Estava preparando tudo para este caminho, meus pensamentos, minhas atitudes eram voltadas única e exclusivamente para esta viagem, cada vez mais perto para acontecer. Até o dia em que minha menstruação começou a atrasar e pensei: “É só o que estava me faltando. Esperei três anos por esta gravidez e agora quando não pensava nela, aconteceu”. Mas a vida continua. Pensei: “Vai ver que é para eu fazer este caminho acompanhada por alguém muito especial”. Já tinha até nome: se fosse um menino seria Ângelo Tiago e se fosse menina, Maria Eduarda.
Mas a vida prega alguns ensinamentos não previstos nos nossos planos, pois foi quando descobri que minha gravidez estava na trompa e que teria que me submeter a uma videolaparoscopia para impedir esta gravidez de risco. Faltavam 35 dias para minha viagem.
Apesar do sofrimento e do sentimento de perder alguém muito especial que nem tinha chegado a conhecer, senti, num determinado momento que este serzinho me dizia, assim como um anjo, que ele teria vindo para me dar forças, mas não poderia ficar comigo agora, tinha que partir. Nossa, eu nunca tinha sentido uma emoção assim antes.
Assim, tendo que me submeter a esta pequena cirurgia, pensava: Será que ainda vou poder fazer minha viagem tão esperada? Graças a Deus, sim. Já recuperada da cirurgia podia sentir realmente minhas forças multiplicadas, o desejo de fazer o caminho estava redobrado. Foi quando, faltando uma semana para a viagem, comecei a sentir algumas dores do lado da cirurgia e o sangramento parecia aumentar, em vez de diminuir. Desesperei-me, agarrei minha mochila que já estava pronta e segurando o terço, chorava e ao mesmo tempo me perguntava: Por que tudo estava acontecendo assim dessa forma, por quê? Fiquei mais tranqüila quando pude sentir novamente minha intuição dizendo, que tudo estava acontecendo assim, porque tinha que ser assim. Já estava enfrentando meus medos antes mesmo de fazer o caminho, era como um teste, ou um preparo, melhor dizendo. Submeti-me a mais um exame para tirar as dúvidas, pois sabia que parar por ali e desistir seria pior. Enfrentar era meu único caminho. Rezei muito e me entreguei a Deus. Pedi que as coisas acontecessem segundo a sua vontade. O exame não acusou nada. Na última semana antes da viagem ainda fiquei gripada, um dente inflamou, e fui para o caminho tomando dois antibióticos diferentes. Sentia meu sistema nervoso bastante abalado.
Estes eram meus primeiros obstáculos. Quando não encontramos nada em nós para ser mudado, é mais simples e cômodo. Mas, quando nos sujeitamos a olhar para nós mesmos, e vamos nos lapidando, a tarefa é mais árdua. Em alguns momentos, por exemplo, passamos por situações desconhecidas que nos trazem dificuldades e sofrimentos. Primeiro ficamos indignados, e depois, é que percebemos o quanto crescemos e evoluímos com aquela situação.
Bom, até aqui, havia deixado escritas as impressões antes de ir viajar; agora, daqui para frente, seriam novos aprendizados. Sentia que estava indo fazer o caminho guiado por Deus e por todos aqueles que Deus achasse necessário colocar no meu caminho. Deixaria me guiar pela intuição, pois sabia que era Ele que estaria ao meu lado.

Valor R$ 20,00

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