O soneto e a trova são formas fixas de poesia que continuam com
grande vitalidade e cultivo. Nelas sempre procuro dar vazão ao
que ocorre no dia a dia. Vez em quando divago em poesias livres e modernas,
mas me sinto como peixe fora d’água nestas modalidades,
posto que neste livro incluo algumas.
Minha filha June (1952-1993) “A que não dormia”,
– soneto que já publiquei em outro livro – também
praticou poesia (livre) de ótima qualidade. Várias delas
escolhi para valorizar o conjunto.
June sofreu um acidente de avião, foi abandonada pelo marido,
que era quem pilotava o aparelho. Ficou paraplégica, com duas
filhas. Ainda tentou trabalhar no ensino dando aulas de Inglês,
mas, fragilizada, passou a morar em nossa casa até que a morte
a levou.
Seus escritos são, na maioria, desta época de sofrimento
e os leitores perceberão nos seus versos, toda a amargura que
possuía.
UMA CARTA
“Não há caminho de retorno ao lugar de quem nós
fomos”.
Senti vontade de lhe escrever. Certas palavras suas ficaram em minha
mente, mascaradas por você como “verdades” de sua
própria criação. É realmente interessante
o mecanismo que você criou dentro de sua cabeça para a
defesa e a maneira de continuar vivendo no propósito de ainda
tentar ser feliz e, bem, admitir a sua culpa e seus erros, não
eliminam nem consertam as coisas que foram provocadas por você.
É tal incoerência dentro de você que não admite.
A gente faz as coisas porque quer e não porque está sempre
confuso, perdido e com a cabeça ruim, como se diz.
– Como é que agora você pensa? Antes não pensava?
Como é triste ver você assim; sem fio, sem brio e destemperado.
Pensar como você pensa é a maneira mais fácil e
cômoda para justificar anos de inconseqüência. Foi
o destino – Estava escrito, tinha que acontecer – Fácil?
Fugir é sempre mais fácil. Você não cresceu.
Mental e espiritualmente.
Tantas coisas boas jogadas fora. Tantas vidas destruídas, tantas
vidas começando com o amargo sabor de um passado sem compasso,
revoltante e amargurado. Por que é que eu tenho que aceitar isto?
Não tenho porque não é justo, não saber
é impossível e porque não seria certo. Que tipo
de sentimentos nos atinge depois de tudo isso?...