LIVROS
:: O AZUL PROFUNDO ::
Erner Machado
A razão do Azul Profundo

Uma vez no Chile jantei num bar chamado O Azul Profundo. Na solidão de uma mesa, tomando um vinho e comendo um prato de peixe, fiquei a observar com fascinação as paisagens pintadas nas paredes. Todas elas mostrando a vida e a geografia das profundezas do mar.
Abaixo das gravuras, grandes aquários continham muitos peixes de todas as qualidades e de todos os tamanhos, que nadavam calmamente sem consciência da prisão em que se encontravam.
Tanto as paisagens, como os aquários, com seu silêncio feitos de azul, sugeriam mistério insondável, solidão incrível e pesada, envolvidas em estranha e exclusiva beleza.


Estes textos são uma foto da profundeza de minha alma, de meus mistérios, de minha solidão, de minha angústia e por isto os comparo com as paisagens e com os aquários daquele bar do Chile, que tanto me tocaram.
Como as paisagens e os aquários me permitiram compartilhar do seu silêncio e de seus mistérios eu permito que os meus possíveis leitores compartilhem do que, antes, eu guardava silenciosamente...!


Palavras do autor

Chego ao final deste conjunto de textos que durante mais de trinta e cinco anos estiveram comigo, guardados como um tesouro raro. Neste tempo todo, estas páginas hoje cheias, foram recebendo os frutos das minhas inspirações, das minhas angústias, das minhas tristezas, das minhas alegrias, da minha sanidade e de alguns momentos em que, certamente, estive louco.
São textos ecléticos, abertos aos estilos mais variados: Poesia com rima, sem rima, com sentidos universais, com conotações regionais ou com entendimentos individuais, reservados, desabafos, confissões, revoltas, todos falando do passado, do presente e alguns do futuro.
Isto tudo para justificar o seu caráter libertário.
É, o meu livro, como as velhas pensões de Porto Alegre, principalmente aquela da ANDRADE NEVES 121 – a Pensão Familiar Fleck, da Reni e do Beto, que recebia em seus quartos, velhos e cheios de cupins, toda a espécie de gente: sonhadores, boêmios, tristes, alegres, loucos, bêbados, poetas, perdulários e agiotas. Para o Beto e a Reni, todos eram hóspedes. E isso bastava.
Para mim, cada palavra, cada frase, cada construção tem um sentido pessoal especial e todos são hóspedes de minha alma, de meu coração, de meus sentimentos e de minha história.
Vai meu livro. Sinto-me como um pai que assiste a um filho partir e, dobrando a curva se perder no mundo. Agora tens a tua própria vida. Fico pedindo que te faças útil, compartilhando as tuas dores e as tuas alegrias, com eventuais companheiros de caminho...


Prefácio

Em cada verso um um novo horizonte

A tarefa de jornalista e escritor nascido no Rio Grande do Sul – e viajado por todos continentes – me tem oferecido uma visão ainda mais singular da poesia que se escreve em nosso Estado. Parece que a distância me traz mais profundamente ao chão gaúcho. E a leitura de O azul profundo, do rosariense Erner Antonio Freitas Machado, tem a marca forte e bem definida de um versejar gaudério e arrojado; ao mesmo tempo é clássico e moderno. Até mesmo porque a sensibilidade não tem escola literária; tem emoção e poesia.
Seu poema Multidão , pág.64, merece mostrá-lo inteiro, belo que é, em toda sua urbanidade. Multidão

Na rua é um monte de gente,
Com cara fechada,
Com pasta na mão,
De terno e gravata,
Caminhando apressada,
Batendo nos outros,
Pisando buracos,
Rasgando caminhos,
Rumo ao destino traçado
Por mão invisível.
E
Na pressa de ir,
Não nota uma mão
Que se estende a pedir
O favor de um tostão.
E
Se vai arrastando,
No louco cortejo,
A caminho do nada.

De outra parte, o regional profundamente terrunho impregna-se de emoção e humanismo, desvendando em versos o forte cheiro de campo, céu, gado, fazendas e peões. E ainda consegue ser um poeta engajado na questão social, fazendo de seu verso uma razão de conquistas para a paz e fraternidade.
Vejamos excertos do poema A Terra, pág. 82.

Ali, na imensidão da pampa,
Eu construí meus sonhos,
Cuja antagônica realidade chegou tão rápida
E de tal maneira devastadora,
Que me jogou no comprido dos corredores,
Que agora são meus campos.
E meus castelos, barracas de lonas,
Cujas goteiras encharcam de lágrimas
Os tapetes de barro do meu chão,
E sujam de dores as minhas salas.

Mas a minha terra está garantida,
João Cabral de Melo Neto,
Em sua Morte e Vida Severina
Me garante a propriedade,
De sete palmos de boa terra,
De definitiva terra!
Que são meus por testamento
E plenamente suficientes,
Para cobrir meu corpo,
Que agora se arrasta meio vivo,
E que um dia repousará,
Totalmente morto.
Ali, na imensidão da pampa,
Nas terras que me são familiares,
Mas agora estranhas,
repousarei, finalmente calmo,
Sem desejos que possam incomodar os meus senhores.

Enfim, saudemos um poeta de tantas faces e em cada uma um novo horizonte. Seja regional, seja universal.

Airton Ortiz
Jornalista e Escritor

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Valor R$ 15,00