Suas principais atuações pessoais e comunitárias:
bancário em Porto Alegre/ RS; professor do ensino médio
em Salvador do Sul/RS; técnico agrícola na Fazenda Tatu-Jupi
em Céu Azul/PR; extensionista da Acarpa em Céu Azul/ PR;
gerente em planejamento agroindustrial na Empresa Agro-Técnica
Planejamentos Ltda., em Cascavel/PR; proprietário da Fa-zenda
Salamanca em Laranjeiras do Sul; supervisor de vendas da IAP em Cascavel;
diretor presidente do Sintrovel em Cascavel/PR; secretário de
Imprensa e Comunicação Social da Fetropar em Curitiba.
Participou e foi presidente de inú-meras entidades sem fins lucrativos,
dezenas de comissões e conselhos municipais e comunitários.
Atualmente, preside a Funda-ção Iguaçu, entidade
constituída por sindicatos de trabalhadores e o Sitrovel –
Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Cascavel
e é membro fundador da ACL – Academia Cas-cavelense de
Letras de Cascavel, onde exerce o cargo de secretário.
Publicações: Rebeldes de Alegrete, Editora
Imprensa Livre, Porto Alegre/ RS, 2004.
Dedicatória
–
Em primeiro lugar dedico à minha amada Suzana Perboni, que repentinamente
surgiu em minha existência com intenso brilho, retirando-me das
trevas, trazendo-me à razão e devolvendo-me a vida.
– Aos meus queridos filhos Fabíola e Francisco, frutos
do primeiro casamento, que cresceram sem a presença do pai e
foram afetados indiretamente pela violência do Estado, modificando
negativamente seus destinos.
– Em memória ao meu inesquecível pai e à
minha dileta mãe, na época meus dependentes, que tiveram
de enfrentar a velhice à custa de uma aposentadoria rural miserável,
pois lhes faltei quando mais precisavam, com isso diminuindo a sua qualidade
de vida e encurtando suas existências.
– À minha filha Aline, que em boa hora brotou e floresceu
em nossa existência como um bálsamo, suavizando as agruras
de uma vida difícil, partilhada intensamente com sua mãe
Suzana, que sempre fez do amor um bem maior.
– Ao meu irmão Delmar Adams (em memória), que gerenciava
a Fazenda Salamanca e que, desiludido, partiu pelos descaminhos, tombando
precocemente.
– Aos amigos, sem excluir ninguém, pelo apoio, pelo carinho
e pela presença nos momentos mais difíceis ao longo desses
quase trinta anos de muita aspereza e dificuldades.
Prefácio
Eterna
resistência. Locução simplista para adjetivar a
seriedade e o destemor desta obra de Hilmar Adams.
Numa linguagem concisa, misto de literatura informativa com verdade
histórica, sabida e verídica no Oeste do Paraná,
o livro desnuda a hipocrisia do avassalador poder estatal neoliberal.
Ao prefaciar esta obra, uma avalanche de emoções me vem
à memória. Fui testemunha ocular do sofrimento físico,
moral, econômico, psicológico e familiar suportados por
Hilmar. Tive a ventura de conhecê-lo em meados de agosto de 1976,
numa relação de professor e aluno do Curso de Administração
de Empresas, primeira turma, da antiga Fecivel, hoje Unioeste de Cascavel.
Oriundos do movimento estudantil, de resistência ao estado de
exceção que fora implantado no Brasil no dia 1º de
abril de 1964, a identidade ideológica e cultural selou entre
nós eterna amizade.
A Morte da Justiça é um libelo contra o poder da força
truculenta que avilta o estado democrático de direito e as liberdades
individuais e coletivas. Pedagogo, técnico agrícola, jornalista
por qualificação acadêmica e científica,
pós-graduado em História Regional, o autor narra com propriedade
e riqueza informativas a verdadeira saga do sofrido e operoso povo oestino.
Revela-se, então, um extraordinário literato e historiador.
Sua temática recompõe o compromisso com a verdade histórica,
que o arbítrio sempre procura mascarar.
Exprimindo-se em estilo franco, objetivo e linguagem inteligível,
analisa anatomicamente as abertas feridas no ato de julgar e as omissões
do poder estatal. O conteúdo do livro, em princípio catalogado
como depoimento, se transmuta por si e leva o leitor mais atento para
outra dimensão: a da denúncia objetiva, séria e
responsável das arbitrariedades praticadas pelos poderes executivo
e judiciário. O texto de Hilmar, claro, corajoso e de fácil
compreensão, remete o leitor a uma prazerosa reflexão.
Deve ser objeto de estudo e adotado com ampliação didático-pedagógica
pela sociedade civil, principalmente pelos entes e segmentos desprovidos
de informação menos comprometida com o sistema engessado
neoliberal. Trata-se de doloroso grito de liberdade, descrito com apurada
técnica e manejo da linguagem coloquial, ao sabor e a serviço
da democracia participativa e da cidadania.
Sua obra desmitifica meias-verdades e veladas mentiras dos poderosos
e alpinistas do poder. É um permanente incentivo a que todos
os brasileiros pratiquem, à exaustão, todas as conquistas
do estado democrático de direito insertas na nossa Carta Política
Maior.
Edson
Carlos Pereira de Sá
Introdução
“A
Literatura deve denunciar
a injustiça e celebrar a vida”.
Eduardo Galeano,
escritor uruguaio
Mais
de trinta anos já se passaram desde quando a violência
política em minha vida deixou de ser apenas notificação
para comparecer em quartel, detenção arbitrária,
intimidação, interrogatório truculento, assédio
psicológico e moral. De repente, passou do plano das ameaças
para se transformar em ato concreto de aniquilamento existencial e material.
Eis que, em meados do mês de janeiro de 1978, pelo poder das armas
de um batalhão da Polícia Militar, o Governo do Estado
do Paraná e a União, juntos, invadiram militarmente propriedades
rurais, sem mandado judicial, para perpetrarem assim, um grande ato
de covardia e violência contra pequenos agricultores, inclusive
o autor, residentes na Vila Guarani, Colônia Guarani e Colônia
Adelaide, no interior do município de Laranjeiras do Sul, no
distrito de Nova Laranjeiras, Estado do Paraná, expulsando arbitrariamente
os moradores de suas casas, esbulhando e saqueando todos os seus bens.
Qual o crime cometido pelos que foram expulsos?
Serem agricultores e morarem numa área de terras que foi vendida
e colonizada pelo próprio Governo do Estado do Paraná,
por meio de seu órgão DGTC – Departamento de Geografia,
Terras e Cartografia e cujos títulos, legítimos, foram
reconhecidos pela própria Procuradoria Geral do Governo do Estado
do Paraná.
Essas propriedades eram vizinhas da Reserva Indígena de Rio das
Cobras, criada e delimitada por decreto no ano de 1901. Entretanto a
Fu nai, mediante a vontade pessoal do seu general presidente e aproveitando-se
de um momento propício pela ausência de direitos e garantias
indivi-duais e coletivas patrocinado pela ação arbitrária
do regime militar no governo brasileiro, em conluio com o Governo do
Estado do Paraná, decidiu expandir a área indígena,
tomando a manu militari a terra dos colonos como se fosse a coisa mais
natural do mundo.
No Brasil de 1978 imperava, ainda, a ditadura militar, comandada na
época pelo general Ernesto Geisel. Por isso a tática policial
e policialesca utilizada contra os agricultores para expulsá-los
de suas propriedades foi a mesma que os militares usavam para perseguir,
prender, torturar e assassinar os adversários políticos
do regime no País inteiro: o terror.
Aquelas famílias tiveram suas vidas destruídas sem que
ninguém ousasse sair em sua defesa. A divulgação
na mídia da ação militar tirânica, nefasta
e desumana ficou restrita aos acontecimentos locais. A censura total
aos meios de comunicação possibilitava a divulgação
apenas da versão inverídica do Governo Federal, do Estado
do Paraná e da Funai, dando conta de que aqueles agricultores
eram bandidos invasores de terras de uma reserva indígena. Essa
versão mentirosa prevaleceu, não restando aos agricultores
alternativa senão a retirada humilhante e silenciosa, tendo como
conseqüência a diáspora dessas famílias pelos
Estados do Sul, engrossando a massa de agricultores sem terra.
O grito isolado do autor nos meios de comunicação somente
serviu para alertar os agentes de informação e de repressão,
que até lançaram um falso registro nos arquivos dos organismos
de segurança em Brasília, conforme certidão expedida
em 14 de junho de 2002 pelo Gabinete de Segurança Institucional
da Agência Brasileira de Inteligência, com os seguintes
termos:
HILMAR
ADAMS, brasileiro, separado, etc
......................................................................................................
Em fevereiro de 1978, durante um conflito que envolveu indígenas
das Reservas Kaingang e Guarani, de Rio das Cobras, no distrito de Laranjeiras,
Município de Laranjeiras do Sul - PR, e posseiros que ocupavam
terras naquela Reserva, dentre os quais o requerente, estes últimos
foram evacuados da referida área indígena. Nessa oportunidade,
o requerente foi um dos posseiros apontados pela comunidade indígena
de Rio das Cobras, como impedido pelos índios de participar dos
50% da colheita, em razão de ter participado do seqüestro
do índio Jerônimo Alves e de outras ações
contra indígenas.
.........................................................................................................
Brasília - DF, 14 de junho de 2002.
DAVID BERNARDES DE ASSIS
Diretor do Centro de Documentação
Pouquíssimos agricultores tiveram condições de
ingressar com medida judicial. Os que entraram não lograram êxito
em nenhum momento.
Aos poucos aquele ato cruento de violência coletiva foi caindo
no esquecimento, ficando para a memória cultural da região
uma história de ouvir falar, sem registro oficial.
Em meses restava apenas o drama de cada família isoladamente,
com suas dificuldades e seus problemas de sobrevivência, de busca
de trabalho, de reconstrução da estrutura familiar e de
recuperação do moral e da auto-estima. Certamente todos
e cada um em particular tiveram que recomeçar a vida do nada,
tarefa muito difícil, pois todos foram transformados em trabalhadores
rurais “sem nada”.
O autor, assim como os demais, foi à luta para recomeçar
sua vida, buscando por meio de uma atividade laboral garantir a sobrevivência
da família, sem nunca perder a expectativa de obter a reparação
pela violência sofrida e a recuperação do patrimônio
esbulhado.
Foram muitos anos dramáticos de luta desigual do autor contra
o poderoso Estado do Paraná, demonstrando a dimensão do
nível de dificuldade que um cidadão se depara ao demandar
contra o privilegiado poder público, centralizado na figura intangível
do governante.
A violência do Estado contra o autor chegou à raia patética
quando, como última tentativa para se esquivar de pagar parte
do dano causado a que fora condenado, em Embargos de Declaração,
sustenta a responsabilidade objetiva do autor pela perda da terra com
a seguinte alegação: “Senão tivesse buscado
a compra, sendo que o Estado não estava ofertando, nada teria
ocorrido”. Isso faz lembrar a fábula de La Fontaine “O
Lobo e o Cordeiro”, cuja moral do mal define que a razão
do mais forte é sempre a melhor.
Neste trabalho o autor descreve sua tragédia pessoal, o drama
de sua família, o inconformismo diante da injustiça e
a busca incessante de justiça, alicerçando-se na lei,
no direito e na ética. Lei é regra! Direito é norma!
Ética é obrigação! Justiça é
coerência!
Do ponto de vista ético, todos os seres humanos deveriam levar
às últimas conseqüências a consciência
de fazer justiça em todas as ações de vida. Mas
nossos governantes são exceções à regra,
ignorando abso-lutamente a norma e assassinando deliberadamente a justiça.
“A Morte da Justiça” é, portanto, mais que
uma denúncia: é um desafio para quem sabe algum dia, sensibilizados,
nossos governantes despertem da letargia e pratiquem tudo aquilo que
já está escrito nos códigos, que são ótimos
– observando a materialidade da lei, a lógica do direito,
o respeito à cidadania e, finalmente, fazendo justiça.
Se não for assim reinará perenemente a injustiça,
restando a nós, simples cidadãos, evocarmos o poeta português
José Felix, que em seu poema a Morte da Fala, quando em discurso
com ritmo, musicalidade, drama e tensão diante do inevitável,
o poeta vislumbra a possibilidade real de sermos emudecidos também,
sepultando a palavra, depois de prantear a morte da fala.