LIVROS
:: A Morte da Justiça ::
Hilmar Adams
Hilmar Adams.
Filho de Miguel Natalício Adams e Heda Munchen Adams, Hilmar Adams, nasceu aos 11 dias de mês de fevereiro de 1944 na cidade Cerro Largo/RS.
Seus primeiros estudos regulares aconteceram na sua cidade natal, no período de 1952/56 na Escola Particular Católica, Linha São Francisco de Cerro Largo.
Iniciação Agrícola 1957/59 em Guarani das Missões/RS; Mestria Agrícola 1960/61 em Viamão/RS; Curso Colegial Agrícola 1963/65 Escola Agrotécnica de Alegrete e na Eta, 1966 – Viamão; Curso Pedagogia e Didática, 1966/68; Ipeargs – Porto Alegre; Curso de Administração de Empresas, 1976/78 – Unioeste/Cascavel; Curso de Jornalismo 2001/2004, sendo laureado com o título de melhor aluno do curso – Unipar – Campus de Cascavel, pós graduado em História Regional pela Unipar, além de mais de 100 outros cursos e extensões nas suas áreas de atuação.
Desde a sua chegada a Cascavel em março de 1971, Hilmar Adams revelou-se um profissional com várias qualificações, um homem/político por excelência, no sentido estrito (política propriamente dita) e no sentido amplo, aí compreendendo-se o exercício da liderança ao assumir a convocação para atuar em várias frentes.
O técnico realizou mais de mil projetos agrícolas, agroindustriais e planejamento agropecuário no Oeste do Paraná. É líder na melhor acepção do termo, transformou-se no criador e organizador de cooperativas de todas as matizes na Região Oeste do Paraná e um animador incansável na área sindical.
 


Suas principais atuações pessoais e comunitárias: bancário em Porto Alegre/ RS; professor do ensino médio em Salvador do Sul/RS; técnico agrícola na Fazenda Tatu-Jupi em Céu Azul/PR; extensionista da Acarpa em Céu Azul/ PR; gerente em planejamento agroindustrial na Empresa Agro-Técnica Planejamentos Ltda., em Cascavel/PR; proprietário da Fa-zenda Salamanca em Laranjeiras do Sul; supervisor de vendas da IAP em Cascavel; diretor presidente do Sintrovel em Cascavel/PR; secretário de Imprensa e Comunicação Social da Fetropar em Curitiba. Participou e foi presidente de inú-meras entidades sem fins lucrativos, dezenas de comissões e conselhos municipais e comunitários.
Atualmente, preside a Funda-ção Iguaçu, entidade constituída por sindicatos de trabalhadores e o Sitrovel – Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Cascavel e é membro fundador da ACL – Academia Cas-cavelense de Letras de Cascavel, onde exerce o cargo de secretário.
Publicações: Rebeldes de Alegrete, Editora Imprensa Livre, Porto Alegre/ RS, 2004.

Dedicatória

– Em primeiro lugar dedico à minha amada Suzana Perboni, que repentinamente surgiu em minha existência com intenso brilho, retirando-me das trevas, trazendo-me à razão e devolvendo-me a vida.
– Aos meus queridos filhos Fabíola e Francisco, frutos do primeiro casamento, que cresceram sem a presença do pai e foram afetados indiretamente pela violência do Estado, modificando negativamente seus destinos.
– Em memória ao meu inesquecível pai e à minha dileta mãe, na época meus dependentes, que tiveram de enfrentar a velhice à custa de uma aposentadoria rural miserável, pois lhes faltei quando mais precisavam, com isso diminuindo a sua qualidade de vida e encurtando suas existências.
– À minha filha Aline, que em boa hora brotou e floresceu em nossa existência como um bálsamo, suavizando as agruras de uma vida difícil, partilhada intensamente com sua mãe Suzana, que sempre fez do amor um bem maior.
– Ao meu irmão Delmar Adams (em memória), que gerenciava a Fazenda Salamanca e que, desiludido, partiu pelos descaminhos, tombando precocemente.
– Aos amigos, sem excluir ninguém, pelo apoio, pelo carinho e pela presença nos momentos mais difíceis ao longo desses quase trinta anos de muita aspereza e dificuldades.


Prefácio

Eterna resistência. Locução simplista para adjetivar a seriedade e o destemor desta obra de Hilmar Adams.
Numa linguagem concisa, misto de literatura informativa com verdade histórica, sabida e verídica no Oeste do Paraná, o livro desnuda a hipocrisia do avassalador poder estatal neoliberal. Ao prefaciar esta obra, uma avalanche de emoções me vem à memória. Fui testemunha ocular do sofrimento físico, moral, econômico, psicológico e familiar suportados por Hilmar. Tive a ventura de conhecê-lo em meados de agosto de 1976, numa relação de professor e aluno do Curso de Administração de Empresas, primeira turma, da antiga Fecivel, hoje Unioeste de Cascavel.
Oriundos do movimento estudantil, de resistência ao estado de exceção que fora implantado no Brasil no dia 1º de abril de 1964, a identidade ideológica e cultural selou entre nós eterna amizade.
A Morte da Justiça é um libelo contra o poder da força truculenta que avilta o estado democrático de direito e as liberdades individuais e coletivas. Pedagogo, técnico agrícola, jornalista por qualificação acadêmica e científica, pós-graduado em História Regional, o autor narra com propriedade e riqueza informativas a verdadeira saga do sofrido e operoso povo oestino. Revela-se, então, um extraordinário literato e historiador.
Sua temática recompõe o compromisso com a verdade histórica, que o arbítrio sempre procura mascarar.
Exprimindo-se em estilo franco, objetivo e linguagem inteligível, analisa anatomicamente as abertas feridas no ato de julgar e as omissões do poder estatal. O conteúdo do livro, em princípio catalogado como depoimento, se transmuta por si e leva o leitor mais atento para outra dimensão: a da denúncia objetiva, séria e responsável das arbitrariedades praticadas pelos poderes executivo e judiciário. O texto de Hilmar, claro, corajoso e de fácil compreensão, remete o leitor a uma prazerosa reflexão. Deve ser objeto de estudo e adotado com ampliação didático-pedagógica pela sociedade civil, principalmente pelos entes e segmentos desprovidos de informação menos comprometida com o sistema engessado neoliberal. Trata-se de doloroso grito de liberdade, descrito com apurada técnica e manejo da linguagem coloquial, ao sabor e a serviço da democracia participativa e da cidadania.
Sua obra desmitifica meias-verdades e veladas mentiras dos poderosos e alpinistas do poder. É um permanente incentivo a que todos os brasileiros pratiquem, à exaustão, todas as conquistas do estado democrático de direito insertas na nossa Carta Política Maior.

Edson Carlos Pereira de Sá

Introdução

“A Literatura deve denunciar
a injustiça e celebrar a vida”.
Eduardo Galeano,
escritor uruguaio

Mais de trinta anos já se passaram desde quando a violência política em minha vida deixou de ser apenas notificação para comparecer em quartel, detenção arbitrária, intimidação, interrogatório truculento, assédio psicológico e moral. De repente, passou do plano das ameaças para se transformar em ato concreto de aniquilamento existencial e material.
Eis que, em meados do mês de janeiro de 1978, pelo poder das armas de um batalhão da Polícia Militar, o Governo do Estado do Paraná e a União, juntos, invadiram militarmente propriedades rurais, sem mandado judicial, para perpetrarem assim, um grande ato de covardia e violência contra pequenos agricultores, inclusive o autor, residentes na Vila Guarani, Colônia Guarani e Colônia Adelaide, no interior do município de Laranjeiras do Sul, no distrito de Nova Laranjeiras, Estado do Paraná, expulsando arbitrariamente os moradores de suas casas, esbulhando e saqueando todos os seus bens.
Qual o crime cometido pelos que foram expulsos?
Serem agricultores e morarem numa área de terras que foi vendida e colonizada pelo próprio Governo do Estado do Paraná, por meio de seu órgão DGTC – Departamento de Geografia, Terras e Cartografia e cujos títulos, legítimos, foram reconhecidos pela própria Procuradoria Geral do Governo do Estado do Paraná.
Essas propriedades eram vizinhas da Reserva Indígena de Rio das Cobras, criada e delimitada por decreto no ano de 1901. Entretanto a Fu nai, mediante a vontade pessoal do seu general presidente e aproveitando-se de um momento propício pela ausência de direitos e garantias indivi-duais e coletivas patrocinado pela ação arbitrária do regime militar no governo brasileiro, em conluio com o Governo do Estado do Paraná, decidiu expandir a área indígena, tomando a manu militari a terra dos colonos como se fosse a coisa mais natural do mundo.
No Brasil de 1978 imperava, ainda, a ditadura militar, comandada na época pelo general Ernesto Geisel. Por isso a tática policial e policialesca utilizada contra os agricultores para expulsá-los de suas propriedades foi a mesma que os militares usavam para perseguir, prender, torturar e assassinar os adversários políticos do regime no País inteiro: o terror.
Aquelas famílias tiveram suas vidas destruídas sem que ninguém ousasse sair em sua defesa. A divulgação na mídia da ação militar tirânica, nefasta e desumana ficou restrita aos acontecimentos locais. A censura total aos meios de comunicação possibilitava a divulgação apenas da versão inverídica do Governo Federal, do Estado do Paraná e da Funai, dando conta de que aqueles agricultores eram bandidos invasores de terras de uma reserva indígena. Essa versão mentirosa prevaleceu, não restando aos agricultores alternativa senão a retirada humilhante e silenciosa, tendo como conseqüência a diáspora dessas famílias pelos Estados do Sul, engrossando a massa de agricultores sem terra.
O grito isolado do autor nos meios de comunicação somente serviu para alertar os agentes de informação e de repressão, que até lançaram um falso registro nos arquivos dos organismos de segurança em Brasília, conforme certidão expedida em 14 de junho de 2002 pelo Gabinete de Segurança Institucional da Agência Brasileira de Inteligência, com os seguintes termos:

HILMAR ADAMS, brasileiro, separado, etc
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Em fevereiro de 1978, durante um conflito que envolveu indígenas das Reservas Kaingang e Guarani, de Rio das Cobras, no distrito de Laranjeiras, Município de Laranjeiras do Sul - PR, e posseiros que ocupavam terras naquela Reserva, dentre os quais o requerente, estes últimos foram evacuados da referida área indígena. Nessa oportunidade, o requerente foi um dos posseiros apontados pela comunidade indígena de Rio das Cobras, como impedido pelos índios de participar dos 50% da colheita, em razão de ter participado do seqüestro do índio Jerônimo Alves e de outras ações contra indígenas.
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Brasília - DF, 14 de junho de 2002.
DAVID BERNARDES DE ASSIS
Diretor do Centro de Documentação

Pouquíssimos agricultores tiveram condições de ingressar com medida judicial. Os que entraram não lograram êxito em nenhum momento.
Aos poucos aquele ato cruento de violência coletiva foi caindo no esquecimento, ficando para a memória cultural da região uma história de ouvir falar, sem registro oficial.
Em meses restava apenas o drama de cada família isoladamente, com suas dificuldades e seus problemas de sobrevivência, de busca de trabalho, de reconstrução da estrutura familiar e de recuperação do moral e da auto-estima. Certamente todos e cada um em particular tiveram que recomeçar a vida do nada, tarefa muito difícil, pois todos foram transformados em trabalhadores rurais “sem nada”.
O autor, assim como os demais, foi à luta para recomeçar sua vida, buscando por meio de uma atividade laboral garantir a sobrevivência da família, sem nunca perder a expectativa de obter a reparação pela violência sofrida e a recuperação do patrimônio esbulhado.
Foram muitos anos dramáticos de luta desigual do autor contra o poderoso Estado do Paraná, demonstrando a dimensão do nível de dificuldade que um cidadão se depara ao demandar contra o privilegiado poder público, centralizado na figura intangível do governante.
A violência do Estado contra o autor chegou à raia patética quando, como última tentativa para se esquivar de pagar parte do dano causado a que fora condenado, em Embargos de Declaração, sustenta a responsabilidade objetiva do autor pela perda da terra com a seguinte alegação: “Senão tivesse buscado a compra, sendo que o Estado não estava ofertando, nada teria ocorrido”. Isso faz lembrar a fábula de La Fontaine “O Lobo e o Cordeiro”, cuja moral do mal define que a razão do mais forte é sempre a melhor.
Neste trabalho o autor descreve sua tragédia pessoal, o drama de sua família, o inconformismo diante da injustiça e a busca incessante de justiça, alicerçando-se na lei, no direito e na ética. Lei é regra! Direito é norma! Ética é obrigação! Justiça é coerência!
Do ponto de vista ético, todos os seres humanos deveriam levar às últimas conseqüências a consciência de fazer justiça em todas as ações de vida. Mas nossos governantes são exceções à regra, ignorando abso-lutamente a norma e assassinando deliberadamente a justiça.
“A Morte da Justiça” é, portanto, mais que uma denúncia: é um desafio para quem sabe algum dia, sensibilizados, nossos governantes despertem da letargia e pratiquem tudo aquilo que já está escrito nos códigos, que são ótimos – observando a materialidade da lei, a lógica do direito, o respeito à cidadania e, finalmente, fazendo justiça.
Se não for assim reinará perenemente a injustiça, restando a nós, simples cidadãos, evocarmos o poeta português José Felix, que em seu poema a Morte da Fala, quando em discurso com ritmo, musicalidade, drama e tensão diante do inevitável, o poeta vislumbra a possibilidade real de sermos emudecidos também, sepultando a palavra, depois de prantear a morte da fala.

 

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