LIVROS
:: HERÓIS DE PAPEL ::
Jerri Roberto Almeida

APRESENTAÇÃO

O presente texto do professor Jerri Roberto Almeida, intitulado “Os heróis de papel. As representações sobre a Revolução Farroupilha na literatura” é resultado de sua monografia de especialização em história e configura-se numa pertinente e profícua reflexão acerca das possíveis contribuições da literatura para a produção do conhecimento histórico. Tributária das reflexões mais recentes da historiografia brasileira, a obra de Jerri busca na tradição das contribuições teóricas dos Annales e seus sucessores, a Nova História, bem como no marxismo britânico, inspirações e contribuições teórico-metodológicas no intuito de realizar um diálogo entre história e literatura. Consciente da potencialidade do texto literário como fonte importante para se aproximar e conhecer um determinado passado, tarefa primordial de todo historiador, o autor selecionou duas obras literárias, “A Divina Pastora” (1847), de João Antonio do Vale Caldre e Fião, e “A Guerra dos Farrapos” (1985) de Alcy Cheuiche como caminho para se compreender tanto o objeto destas obras, a Guerra Farroupilha, quanto as representações e discursos produzidos acerca deste evento.




         Temos visto que uma das possibilidades mais interessantes de se estudar o passado atualmente, realizada pela história social e pela história cultural, tem sido justamente a utilização pelos historiadores da produção cultural de um determinada época e sociedade como instrumento de compreensão privilegiado da história desta mesma época e sociedade. Portanto, a estratégia de Jerri foi muito feliz, não somente pela abordagem proposta, mas também pela execução bem realizada, já que ele consegue, com pertinência, um diálogo permanente, ao longo do texto, entre história e literatura. Desde a discussão teórica da relação entre história e literatura, o autor define o estatuto das duas atividades intelectuais, distinguindo com propriedade estas duas narrativas, ao conceber que é dever da história se aproximar ao máximo possível do conhecimento do homem no passado, enquanto a literatura deve servir ao historiador como fonte inestimável para a história social e cultural. O recurso à literatura, do ponto de vista do ofício do historiador, possibilita algo que nem sempre outros documentos históricos permitem, ou seja, chegarmos as pessoas comuns do passado e compreender como elas viviam, o que faziam, como pensavam, o que sentiam, entre outras possibilidades.
         Todavia, é importante frisarmos que a escolha como objeto das representações literárias acerca de um evento, no caso, o conflito civil farroupilha, não significou, como resultado, um estudo que fragmentou o passado, abordando exclusivamente as visões literárias descoladas do processo histórico mais amplo. Não se trata de uma “história em migalhas”, para usar uma expressão do historiador francês François Dosse. Pelo contrário, a boa história é aquela que consegue relacionar um evento a uma estrutura social mais ampla, contextualizando um determinado tempo. Se a matéria prima fundamental de todo historiador é o tempo, na busca interminável em explicar os homens em um específico passado, o texto que será lido a seguir cumpriu muito bem este papel. Ao trabalhar o conflito farroupilha, Jerri contextualiza o período, pois o insere no processo de formação do Estado nacional brasileiro, iniciado na 1ª metade do século XIX a partir do projeto imperial bragantino, que teve entre suas características principais a centralização política promovida a partir do Rio de Janeiro. Neste aspecto, o autor enfoca um tema fundamental presente no Brasil dos oitocentos, qual seja, a questão da formação da nacionalidade.
Fundamentado principalmente nas reflexões teóricas sobre o tema do Estado e da identidade nacional realizadas pelo historiador britânico Eric Hobsbawm, “Os heróis de papel. As representações sobre a Revolução Farroupilha na literatura” apresenta a discussão a partir das obras analisadas. Por exemplo, em “A Divina Pastora”, obra escrita logo após a Guerra Farroupilha, apesar da presença da valorização do regional e mesmo certa idealização do passado, Caldre e Fião, segundo Jerri, preocupou-se em construir um discurso que buscava a integração dos rio-grandenses ao Império do Brasil. Nesta perspectiva, o literato, mais do que nunca, representou seu tempo, pois sabemos que após 1845 e principalmente a partir da década de 1850 houve uma articulação política entre o poder central do Império, desejoso de ter a elite rio-grandense ao seu lado para promover uma política agressiva na Região do Prata e os então intitulados “arredios rio-grandenses”, grandes proprietários rurais e ricos comerciantes interessados na manutenção de seus interesses privados na mesma região. Portanto, de certa maneira, a obra de Caldre e Fião, justificou a aproximação política da elite rio-grandense à elite do centro do Império, ocorrida em meados do século XIX, ao argumentar que os revoltosos de 1835 estavam equivocados ao exacerbar o ideário liberal, sendo “caudilhos” tomados pelo “fanatismo político”.
          Já a análise de “A Guerra dos Farrapos”, de Alcy Cheuche, segundo o texto que aqui apresentamos, precisa ser compreendida, a partir do tempo de sua produção, ou seja, o ano de 1985. Este é um princípio do ofício de historiador que deve ser sempre fundamento da pesquisa histórica. Como temos percebido, pelo menos nas últimas duas décadas, a Guerra Farroupilha tem servido, nos últimos tempos, como mito fundador da identidade regional rio-grandense. Cheuiche, como bem demonstra Jerri, ao produzir seu texto literário no ano do sesquicentenário da Farroupilha, segue esta tendência de idealizar o passado, ao produzir uma representação épica que, como é próprio a este tipo de narrativa, superestima as supostas virtudes heróicas e guerreiras dos farroupilhas e dos próprios rio-grandenses como um todo. O autor avalia, com pertinência, que “A Guerra dos Farrapos” apresenta uma homogeneização em relação a população rio-grandense do século XIX, ao deixar de lado as desigualdades sociais presentes na sociedade rio-grandense e dissimular ou esquecer da exploração presente no sistema escravista.
Jerri também salienta uma discussão contemporânea a obra de Cheuiche, muito presente na década de 1980, qual seja, a quase sempre reclamação dos governantes do Rio Grande do Sul contra o poder central, no caso, o “tirânico Império”. Ao abordar este tema, Jerri cumpre uma função inestimável da história, que é a de fazer, sempre que possível e sem cair em anacronismos, uma relação pertinente entre passado e presente. Como se sabe, uma das tarefas primordiais da história é estudar o passado com o intuito de problematizar questões do presente. Sem dúvida, talvez esta seja uma das mais caras tarefas do ofício de historiador, pois como afirmou o historiador francês fundador dos Annales, Marc Bloch, “o atual não é jamais completamente explicável senão pelo remoto”. Além disso, temos consciência que o passado não se modifica, mas o conhecimento que temos dele é algo sempre em potencial desenvolvimento e, pela leitura que virá a seguir, será possível perceber que Jerri Roberto Almeida cumpre com maestria este objetivo, contribuindo para a produção do conhecimento histórico acerca da Guerra Farroupilha e suas representações literárias.

André Fertig
Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


Dados Biograficos.

Jerri Roberto Almeida é professor de História, especialista em Diálogos entre História e Literatura do Rio Grande do Sul. Desenvolv, também, pesquisas sobre as relações escravistas em Conceição do Arroio (Osório). Possui diversos artigos sobre História, Literatura e Filosofia, publicados em jornais e obras especializadas. É autor do livro Filosofia da Convivência.
Mantém na internet a coluna Café Filosófico onde escreve sobre assuntos de seu interesse.

www.litoralnorters.com.br/cafefilosofico


Valor R$18,00