Temos visto que uma
das possibilidades mais interessantes de se estudar o passado atualmente,
realizada pela história social e pela história cultural,
tem sido justamente a utilização pelos historiadores da
produção cultural de um determinada época e sociedade
como instrumento de compreensão privilegiado da história
desta mesma época e sociedade. Portanto, a estratégia
de Jerri foi muito feliz, não somente pela abordagem proposta,
mas também pela execução bem realizada, já
que ele consegue, com pertinência, um diálogo permanente,
ao longo do texto, entre história e literatura. Desde a discussão
teórica da relação entre história e literatura,
o autor define o estatuto das duas atividades intelectuais, distinguindo
com propriedade estas duas narrativas, ao conceber que é dever
da história se aproximar ao máximo possível do
conhecimento do homem no passado, enquanto a literatura deve servir
ao historiador como fonte inestimável para a história
social e cultural. O recurso à literatura, do ponto de vista
do ofício do historiador, possibilita algo que nem sempre outros
documentos históricos permitem, ou seja, chegarmos as pessoas
comuns do passado e compreender como elas viviam, o que faziam, como
pensavam, o que sentiam, entre outras possibilidades.
Todavia, é
importante frisarmos que a escolha como objeto das representações
literárias acerca de um evento, no caso, o conflito civil farroupilha,
não significou, como resultado, um estudo que fragmentou o passado,
abordando exclusivamente as visões literárias descoladas
do processo histórico mais amplo. Não se trata de uma
“história em migalhas”, para usar uma expressão
do historiador francês François Dosse. Pelo contrário,
a boa história é aquela que consegue relacionar um evento
a uma estrutura social mais ampla, contextualizando um determinado tempo.
Se a matéria prima fundamental de todo historiador é o
tempo, na busca interminável em explicar os homens em um específico
passado, o texto que será lido a seguir cumpriu muito bem este
papel. Ao trabalhar o conflito farroupilha, Jerri contextualiza o período,
pois o insere no processo de formação do Estado nacional
brasileiro, iniciado na 1ª metade do século XIX a partir
do projeto imperial bragantino, que teve entre suas características
principais a centralização política promovida a
partir do Rio de Janeiro. Neste aspecto, o autor enfoca um tema fundamental
presente no Brasil dos oitocentos, qual seja, a questão da formação
da nacionalidade.
Fundamentado principalmente nas reflexões teóricas sobre
o tema do Estado e da identidade nacional realizadas pelo historiador
britânico Eric Hobsbawm, “Os heróis de papel. As
representações sobre a Revolução Farroupilha
na literatura” apresenta a discussão a partir das obras
analisadas. Por exemplo, em “A Divina Pastora”, obra escrita
logo após a Guerra Farroupilha, apesar da presença da
valorização do regional e mesmo certa idealização
do passado, Caldre e Fião, segundo Jerri, preocupou-se em construir
um discurso que buscava a integração dos rio-grandenses
ao Império do Brasil. Nesta perspectiva, o literato, mais do
que nunca, representou seu tempo, pois sabemos que após 1845
e principalmente a partir da década de 1850 houve uma articulação
política entre o poder central do Império, desejoso de
ter a elite rio-grandense ao seu lado para promover uma política
agressiva na Região do Prata e os então intitulados “arredios
rio-grandenses”, grandes proprietários rurais e ricos comerciantes
interessados na manutenção de seus interesses privados
na mesma região. Portanto, de certa maneira, a obra de Caldre
e Fião, justificou a aproximação política
da elite rio-grandense à elite do centro do Império, ocorrida
em meados do século XIX, ao argumentar que os revoltosos de 1835
estavam equivocados ao exacerbar o ideário liberal, sendo “caudilhos”
tomados pelo “fanatismo político”.
Já
a análise de “A Guerra dos Farrapos”, de Alcy Cheuche,
segundo o texto que aqui apresentamos, precisa ser compreendida, a partir
do tempo de sua produção, ou seja, o ano de 1985. Este
é um princípio do ofício de historiador que deve
ser sempre fundamento da pesquisa histórica. Como temos percebido,
pelo menos nas últimas duas décadas, a Guerra Farroupilha
tem servido, nos últimos tempos, como mito fundador da identidade
regional rio-grandense. Cheuiche, como bem demonstra Jerri, ao produzir
seu texto literário no ano do sesquicentenário da Farroupilha,
segue esta tendência de idealizar o passado, ao produzir uma representação
épica que, como é próprio a este tipo de narrativa,
superestima as supostas virtudes heróicas e guerreiras dos farroupilhas
e dos próprios rio-grandenses como um todo. O autor avalia, com
pertinência, que “A Guerra dos Farrapos” apresenta
uma homogeneização em relação a população
rio-grandense do século XIX, ao deixar de lado as desigualdades
sociais presentes na sociedade rio-grandense e dissimular ou esquecer
da exploração presente no sistema escravista.
Jerri também salienta uma discussão contemporânea
a obra de Cheuiche, muito presente na década de 1980, qual seja,
a quase sempre reclamação dos governantes do Rio Grande
do Sul contra o poder central, no caso, o “tirânico Império”.
Ao abordar este tema, Jerri cumpre uma função inestimável
da história, que é a de fazer, sempre que possível
e sem cair em anacronismos, uma relação pertinente entre
passado e presente. Como se sabe, uma das tarefas primordiais da história
é estudar o passado com o intuito de problematizar questões
do presente. Sem dúvida, talvez esta seja uma das mais caras
tarefas do ofício de historiador, pois como afirmou o historiador
francês fundador dos Annales, Marc Bloch, “o atual não
é jamais completamente explicável senão pelo remoto”.
Além disso, temos consciência que o passado não
se modifica, mas o conhecimento que temos dele é algo sempre
em potencial desenvolvimento e, pela leitura que virá a seguir,
será possível perceber que Jerri Roberto Almeida cumpre
com maestria este objetivo, contribuindo para a produção
do conhecimento histórico acerca da Guerra Farroupilha e suas
representações literárias.
André
Fertig
Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS) e Professor do Departamento de História da Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM).
Dados
Biograficos.
Jerri Roberto
Almeida é professor de História, especialista
em Diálogos entre História e Literatura do Rio Grande
do Sul. Desenvolv, também, pesquisas sobre as relações
escravistas em Conceição do Arroio (Osório). Possui
diversos artigos sobre História, Literatura e Filosofia, publicados
em jornais e obras especializadas. É autor do livro Filosofia
da Convivência.
Mantém na internet a coluna Café Filosófico onde
escreve sobre assuntos de seu interesse.
www.litoralnorters.com.br/cafefilosofico