Prenda
Literária
Ivan Cavalcanti Proença*
É preciso dizer
Ânsias, gratuitas, de novidade e evidência, pretenderam
decretar (nos centros cosmopolitas) o fim do Regionalismo na literatura
brasileira. Ocorreu por volta dos anos 80 e 90 do século há
pouco findado. Isto é, rendição lamentável
às propostas teóricas que giravam em torno da “Aldeia
Global” e de sua conseqüência 20 anos depois: a Globalização.
Nada mais grotesco e colonizado em um país como o Brasil, com
sua extensão territorial e sua imensa riqueza cultural diversificada
em múltiplas regiões geográficas. O livro de Jorge
Hausen (desde o título) ostensiva e lucidamente desconstrói
a farsa submissa, ao oferecer-nos alguns contos no melhor estilo regional,
contos de época e de memória ficcional inclusive –
Preciso nas tramas, nos personagens, no vocabulário. E, ainda,
o livro de Jorge favorece tese atualíssima, no sentido de que,
conquanto exausto, o Modernismo não sairá do cenário
literário brasileiro. O gênero conto se adequa a tal conceituação
de perenidade do revolucionário estilo iniciado nos anos 20 e
exaurido (não extinto) no final do século. É o
que encontraremos em exame atento da obra do Autor em questão.
Da
forma
O desfecho, ora lacônico, ora não-final dos contos, desde
A prenda de seu Damaso, o ritmo de períodos telegráficos
(sabiamente alternados com o “derramamento” de outros),
as construções em anástrofe, o humor-humor –
nem sempre cáustico – o vocabulário em efeito de
adequação ao contexto enquanto conteúdo sendo forma
que vem à tona, a simplicidade a serviço da clareza do
texto... Tudo à altura qualitativa dos princípios do conto
Moderno. E não faltam as “sentenças”, as máximas
– também adequadíssimas – ora acompanhando
Caxambu aquele notável artilheiro do São Cristóvão
(Selada a vingança, 6x1): “Promessa é dívida.
Aqui ninguém mija pra trás”; ora através
Simeão de O queridinho das mulheres, após um artifício
que ele aplicou na fogosa Lory: “tiro dado, bugio deitado”,
arremata o gaúcho-macho que, não raro, tinha “ataque
espontâneo de tesão”.
Estórias curtas percorrem o volume, sem perda da força
e da estrutura de tramas, síntese de enredo: O mel, Poderosas
luzes, O pêlo da pele – involução e expectativas
presentes.
O Tempo retardado, isto é, minúcias, detalhes, enumerações,
tudo exageradamente descritivo naquele momento, revela o talento artesanal
do escritor ao colocar aqueles “fragmentos” funcionalmente.
Tudo significa. Tudo informa e retrata ambiente, personagem, situação
em pauta: uma cidade (P. Alegre), um velório; pêlo, pele,
sexo; trajes e a figura de Doly José, o cenário de um
cais do porto, etc. Narrador intruso curiosamente vindo à tona
logo na abertura dos contos: Nem o diabo pode, Como queria demonstrar,
e presente ao longo das narrativas, sem o explícito contacto
com o Leitor (Caro Leitor...).
O
peso conteudístico
No melhor estilo dos personagens do neo-realismo no cinema italiano
ou na literatura portuguesa, desfilam os protagonistas, deuteragonistas
e figuras secundárias ao longo do livro. Borges de Medeiros,
Caxambu, a mãe (Nem o diabo pode), Joana, o narrador (1ª
pessoa de Como queria demonstrar); Simeão, o querido, e sua vingança;
Marlon (Pimenta da Silva), Dona Olga do macabro O coração
de chocolate, seu Domingos (o Mingo ferreiro), além das “patotas”
dos amigos e acompanhantes a “engrandecer” os protagonistas
— galeria de notáveis personagens a compor o que há
de melhor em nossa Literatura.
Aqui, ainda, o caricatural pegador de onças, hiperbólico,
façanhudo como convém às tradicionais narrativas
oralizantes, muito populares no interior do Brasil, estórias
encantatórias por vezes, conhecidas como causos. Outras narrativas
transitam pelo ontem e pelo muito-ontem: memória e resquícios
de ubi-sunt. Ainda, o entrelaçamento de duas estórias
que favorecem o susto-pavor do protagonista Ronaldo, o traído:
evidencia-se a metáfora das cobras do Gurupi.
A cena antológica dos amigos do peito do craque, com ele Caxambu,
ali no botequim da Figueira de Melo, em frente ao campo do São
Cristóvão, onde dali a pouco o artilheiro entraria em
campo para o clássico contra o Fluminense, é para ficar
no painel das melhores passagens da ficção brasileira.
Flagrante de bairro de um Rio de Janeiro, do qual se orgulhariam os
mestres Marques Rebêlo e Aldir Blanc.
Jorge Hausen, com este A prenda de seu Damaso, se coloca entre os mais
importantes ficcionistas, gênero conto, da Literatura Brasileira.
(*)
I.C.P. é Professor, Mestre e Doutor
em Literatura Brasileira. Crítico. Ensaísta.