LIVROS
:: A PRENDA DO SEU DAMASO ::
Jorge Hausen
Jorge Hausen mora há muito tempo no Rio de Janeiro, mas é evidente que continua mantendo sua identidade gaúcha. Se vocês duvidam, leiam este ótimo conto que é “O queridinho das mulheres”. Ali Jorge Hausen nos fala de Simeão, geólogo aposentado que, depois de trabalhar no Nordeste, volta a morar com a família no interior do Rio Grande do Sul. Num momento da narrativa nós o acompanhamos num passeio por Porto Alegre, por lugares que o autor evoca com evidente nostalgia e ternura.
Mas não só nisto, não só o apego à terra natal, revela-se a identidade gaúcha de Jorge Hausen. Ele é um excelente contista. Nisto ele se vincula à tradição gaúcha do “causo”, o costume de contar histórias ao redor do fogo, no galpão, enquanto a cuia de mate passa de mão em mão. É este prazer da narrativa que Jorge Hausen passa a seus leitores. E o faz graças ao domínio da palavra, ao sutil humor e também graças à capacidade de mergulhar fundo na condição humana. Vincula-se assim à linhagem de escritores como Simões Lopes Neto e Erico Verissimo. O que é, para a literatura brasileira, uma excelente notícia.
Moacyr Scliar
Da Academia Brasileira de Letras

 

Prenda Literária
Ivan Cavalcanti Proença*

É preciso dizer
Ânsias, gratuitas, de novidade e evidência, pretenderam decretar (nos centros cosmopolitas) o fim do Regionalismo na literatura brasileira. Ocorreu por volta dos anos 80 e 90 do século há pouco findado. Isto é, rendição lamentável às propostas teóricas que giravam em torno da “Aldeia Global” e de sua conseqüência 20 anos depois: a Globalização. Nada mais grotesco e colonizado em um país como o Brasil, com sua extensão territorial e sua imensa riqueza cultural diversificada em múltiplas regiões geográficas. O livro de Jorge Hausen (desde o título) ostensiva e lucidamente desconstrói a farsa submissa, ao oferecer-nos alguns contos no melhor estilo regional, contos de época e de memória ficcional inclusive – Preciso nas tramas, nos personagens, no vocabulário. E, ainda, o livro de Jorge favorece tese atualíssima, no sentido de que, conquanto exausto, o Modernismo não sairá do cenário literário brasileiro. O gênero conto se adequa a tal conceituação de perenidade do revolucionário estilo iniciado nos anos 20 e exaurido (não extinto) no final do século. É o que encontraremos em exame atento da obra do Autor em questão.

Da forma
O desfecho, ora lacônico, ora não-final dos contos, desde A prenda de seu Damaso, o ritmo de períodos telegráficos (sabiamente alternados com o “derramamento” de outros), as construções em anástrofe, o humor-humor – nem sempre cáustico – o vocabulário em efeito de adequação ao contexto enquanto conteúdo sendo forma que vem à tona, a simplicidade a serviço da clareza do texto... Tudo à altura qualitativa dos princípios do conto Moderno. E não faltam as “sentenças”, as máximas – também adequadíssimas – ora acompanhando Caxambu aquele notável artilheiro do São Cristóvão (Selada a vingança, 6x1): “Promessa é dívida. Aqui ninguém mija pra trás”; ora através Simeão de O queridinho das mulheres, após um artifício que ele aplicou na fogosa Lory: “tiro dado, bugio deitado”, arremata o gaúcho-macho que, não raro, tinha “ataque espontâneo de tesão”.
Estórias curtas percorrem o volume, sem perda da força e da estrutura de tramas, síntese de enredo: O mel, Poderosas luzes, O pêlo da pele – involução e expectativas presentes.
O Tempo retardado, isto é, minúcias, detalhes, enumerações, tudo exageradamente descritivo naquele momento, revela o talento artesanal do escritor ao colocar aqueles “fragmentos” funcionalmente. Tudo significa. Tudo informa e retrata ambiente, personagem, situação em pauta: uma cidade (P. Alegre), um velório; pêlo, pele, sexo; trajes e a figura de Doly José, o cenário de um cais do porto, etc. Narrador intruso curiosamente vindo à tona logo na abertura dos contos: Nem o diabo pode, Como queria demonstrar, e presente ao longo das narrativas, sem o explícito contacto com o Leitor (Caro Leitor...).

O peso conteudístico
No melhor estilo dos personagens do neo-realismo no cinema italiano ou na literatura portuguesa, desfilam os protagonistas, deuteragonistas e figuras secundárias ao longo do livro. Borges de Medeiros, Caxambu, a mãe (Nem o diabo pode), Joana, o narrador (1ª pessoa de Como queria demonstrar); Simeão, o querido, e sua vingança; Marlon (Pimenta da Silva), Dona Olga do macabro O coração de chocolate, seu Domingos (o Mingo ferreiro), além das “patotas” dos amigos e acompanhantes a “engrandecer” os protagonistas — galeria de notáveis personagens a compor o que há de melhor em nossa Literatura.
Aqui, ainda, o caricatural pegador de onças, hiperbólico, façanhudo como convém às tradicionais narrativas oralizantes, muito populares no interior do Brasil, estórias encantatórias por vezes, conhecidas como causos. Outras narrativas transitam pelo ontem e pelo muito-ontem: memória e resquícios de ubi-sunt. Ainda, o entrelaçamento de duas estórias que favorecem o susto-pavor do protagonista Ronaldo, o traído: evidencia-se a metáfora das cobras do Gurupi.
A cena antológica dos amigos do peito do craque, com ele Caxambu, ali no botequim da Figueira de Melo, em frente ao campo do São Cristóvão, onde dali a pouco o artilheiro entraria em campo para o clássico contra o Fluminense, é para ficar no painel das melhores passagens da ficção brasileira. Flagrante de bairro de um Rio de Janeiro, do qual se orgulhariam os mestres Marques Rebêlo e Aldir Blanc.
Jorge Hausen, com este A prenda de seu Damaso, se coloca entre os mais importantes ficcionistas, gênero conto, da Literatura Brasileira.

(*) I.C.P. é Professor, Mestre e Doutor
em Literatura Brasileira. Crítico. Ensaísta.