"Cá estamos nós José. Finalmente nos encontramos.
As condições, é verdade, não lhe são
muito favoráveis do ponto de vista humano. Pode-se dizer, você
está em dois lugares ao mesmo tempo. No hospital com os médicos
fazendo tudo para salvá-lo. E aqui na minha frente em espírito
desdobrado do corpo. Antes de me perguntar: você está
no lugar que os antigos gregos, em sua mitologia, chamavam Campos
Elíseos. Morada dos espíritos e dos eleitos, reino dos
mortos, terra venturosa, sem frio, sem chuva e sempre ventilada pela
brisa de Zéfiro. Para nós a morada dos espíritos,
primeira etapa de uma longa caminhada determinada pelo Criador. Lugar
onde todos os seres depois de desencarnados passarão..."
***
"Nas muitas noitadas e nas matinês de domingo lá
estava um menino franzino e de olhar atento. Não perdia uma
fala, nada nem um detalhe. Ali podia sonhar em um dia ser como o astro
principal. Viver suas aventuras e desventuras. Rir. Chorar. Lutar
contra os moinhos de vento transformados em dragões. Sentir-se
super-herói. Defender os fracos e oprimidos. Naqueles momentos
esquecia-se de todo o real em sua volta. Das dificuldades de sua família,
uma família pobre de subúrbio. O pequeno José
queria ser como Zico Lopes em sua capacidade de transformação
camaleônica. Transformar-se de um personagem a outro num piscar
de olhos: jovem, meia-idade, velho. Grande astro aquele velho e bom
Zico, com um os dentes incisivos de ouro, exibidos com orgulho."