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:: Daqui da minha janela - Acontecências::
Naíma Kepes Ayub

Naima Kepes Ayub nasceu e vive em Porto Alegre, RS. Desde muito cedo não resiste a uma folha em branco; escrever é quase como respirar.
Professora de Filosofia, Pedagoga e Orientadora Educacional define-se como uma “eterna estudante. Muito jovem, plenos anos sessenta já participava de movimentos estudantis, atenta aos acontecimentos sociais e políticos.
Mais tarde, o engajamento ao movimento sindical e associativista foi uma continuidade natural.
Esparramar palavras no papel é um exercício sutil, mínimo desse imperativo: que o mundo fique mais bonito e mais humano.
Suas viagens têm sido oportunidades de captar outras paisagens e culturas. Menos um passeio, muito mais uma pesquisa: ânsia de ver mais.
“Daqui da minha janela” são palavras e rimas como forma de exercer esta militância: cenários, retalhos e acontecências desde a ótica de quem quer um mundo melhor.



A Poesia, ao que parece, continua sendo uma fortaleza de beleza e justiça no coração dos corajosos que nestes tempos violentos conseguem erguer a voz da fraternidade.
Homens e mulheres que navegam no oceano das palavras sempre sopram, em ilhas e continentes, poemas de resistência ao luto geral. Combatem nas escassas trincheiras da dignidade a banalização do engodo. Poetas iguais a Naíma Ayub erguem bandeiras de rebeldia; punhos destemidos plantam verdades no território da safadeza e do medo. E a poeta ainda encontra tempo para trazer de seu âmago os versos de amor e de cântico à ternura, por sua crença no amor e em tempos melhores.
Seus textos, aparentemente simples, valorizando clássicas rimas e métrica, trazem uma grande e profunda carga de ternura e respeito humano. Aborda temáticas bastante amplas, como destaca o poema “Minha casa” / É o meu canto /a minha tenda / um lugar e tanto / feito encomenda // Nela sou parasita / é minha caverna / uma troglodita / pós-moderna // Meu planeta / onde me espalho / tem assim de gaveta / e colcha de retalho ...
De minha janela, desnuda o universo exterior de Naíma Ayub, mas também desvela seu rico mundo interior. E a Poesia lucra com isso.

Rossyr Berny – Editor



Poemas:


Assalto

Chego lépida e faceira
como se fosse colegial
afinal, é sexta-feira
tem o fim de semana e tal

Paro frente ao prédio
espero o portão levantar
mas eis que um assédio
começa a se esboçar

Um vulto logo aparece
mais que de repente
ainda que me apresse
o perigo é iminente

Tinha dois metros de altura
era feio de dar dó
se me pega essa criatura
apenas me reduz a pó

Queria pão o indigente
não queria matar ninguém
mas o que vem logo à mente
é assalto, mão armada, refém

Como ser solidário
com o que temos no Planalto?
De lá vem o noticiário
todo dia um novo assalto!

Campo

O andar de uma carroça
faz o ar comovente
começa o dia na roça
logo ao sol nascente

Um sonolento riacho
de água cristalina
vai correnteza abaixo
em longo véu de neblina

Um burrinho seguia
pela estrada vagaroso
sol quente ao meio dia
desamparado, manhoso

O vento no milharal
num doce entardecer
a figueira do quintal
anuncia que vai chover

Vacas de infinita melancolia
ruminam seu destino
a relva se encolhia
sob um sol vespertino

Anoitece mansamente
centenas de vaga–lumes
silêncio de antigamente
povoado de queixumes

Rio Grande do Sul

Desculpe a falta de jeito
mas trago no meu peito
toneladas de emoção
por ter nascido neste chão.
Sou da terra do Minuano
vento forte e cigano
que tudo leva para o caminho.
Sou da terra do bom vinho
e também deste mar bravio,
sou de onde faz frio
e, perdão pelo orgulho,
mas em todo mês de julho
cada brasileiro deve
se deliciar em nossa neve.
Quem não gosta do mate amargo
do povo de sorriso largo
da mulher, que além de bonita,
se reconhece em Anita?
E quem, acaso, não é chegado
a um passeio por Gramado?
Lembro o verde daqueles matos
em volta da Lagoa dos Patos;
quero o gosto doce da pitanga
da bergamota e da moranga;
e o que mais me amarro
é na casa do João de Barro.
Nem a neblina tampa
toda a beleza do meu pampa.
E, nesta fala que se encerra,
os Campos de Cima da Serra
que a todos nós pertence.
Sou do sul,
tenho alma rio–grandense.


Bordini do velho Coronel

Na Bordini do velho Coronel
de bem-te-vis e sabiás
tem colorido a granel
e árvore de flor lilás

Muitas e doces heranças
dos antigos casarões
o vento ensaia danças
nos galhos dos chorões

Rua de tantas ladeiras
e das mocinhas casadouras
em tardes bem faceiras
bordados de lantejoulas

Era jardim que florescia,
eram lampiões e saraus…
A noite caíndo fria
no mármore dos degraus

A Bordini do velho Coronel,
esquinas antes tão mansas
passa o tempo feito carrossel
dourado baú de lembranças…


Muitas mãos

Fico aos sobressaltos
e cada vez entendo menos
por que lucros tão altos
e salários tão pequenos?

Suspiro pelos cantos
e não vejo solução
empobrecidos são tantos
até quando exclusão?

A situação é séria
(são noites de insônia…)
De onde tanta miséria
em meio a Babilônia?

No erguer de uma obra
trabalham muitas mãos;
por que tão pouco sobra
de toneladas de grãos?

Quando olho ao redor
me vem logo a certeza
trabalho e suor
são mais que realeza

Num mundo ilimitado
e gente tão precária
escolhi o meu lado
tenho alma operária

 



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