A Poesia, ao que parece, continua sendo uma fortaleza de beleza e justiça
no coração dos corajosos que nestes tempos violentos conseguem
erguer a voz da fraternidade.
Homens e mulheres que navegam no oceano das palavras sempre sopram,
em ilhas e continentes, poemas de resistência ao luto geral. Combatem
nas escassas trincheiras da dignidade a banalização do
engodo. Poetas iguais a Naíma Ayub erguem bandeiras de rebeldia;
punhos destemidos plantam verdades no território da safadeza
e do medo. E a poeta ainda encontra tempo para trazer de seu âmago
os versos de amor e de cântico à ternura, por sua crença
no amor e em tempos melhores.
Seus textos, aparentemente simples, valorizando clássicas rimas
e métrica, trazem uma grande e profunda carga de ternura e respeito
humano. Aborda temáticas bastante amplas, como destaca o poema
“Minha casa” / É o meu canto /a minha
tenda / um lugar e tanto / feito encomenda // Nela sou parasita / é
minha caverna / uma troglodita / pós-moderna // Meu planeta /
onde me espalho / tem assim de gaveta / e colcha de retalho ...
De minha janela, desnuda o universo exterior de Naíma Ayub, mas
também desvela seu rico mundo interior. E a Poesia lucra com
isso.
Rossyr Berny – Editor
Poemas:
Assalto
Chego lépida
e faceira
como se fosse colegial
afinal, é sexta-feira
tem o fim de semana e tal
Paro frente
ao prédio
espero o portão levantar
mas eis que um assédio
começa a se esboçar
Um vulto logo
aparece
mais que de repente
ainda que me apresse
o perigo é iminente
Tinha dois metros
de altura
era feio de dar dó
se me pega essa criatura
apenas me reduz a pó
Queria pão
o indigente
não queria matar ninguém
mas o que vem logo à mente
é assalto, mão armada, refém
Como ser solidário
com o que temos no Planalto?
De lá vem o noticiário
todo dia um novo assalto!
Campo
O andar de uma
carroça
faz o ar comovente
começa o dia na roça
logo ao sol nascente
Um sonolento
riacho
de água cristalina
vai correnteza abaixo
em longo véu de neblina
Um burrinho
seguia
pela estrada vagaroso
sol quente ao meio dia
desamparado, manhoso
O vento no milharal
num doce entardecer
a figueira do quintal
anuncia que vai chover
Vacas de infinita
melancolia
ruminam seu destino
a relva se encolhia
sob um sol vespertino
Anoitece mansamente
centenas de vaga–lumes
silêncio de antigamente
povoado de queixumes
Rio
Grande do Sul
Desculpe a falta
de jeito
mas trago no meu peito
toneladas de emoção
por ter nascido neste chão.
Sou da terra do Minuano
vento forte e cigano
que tudo leva para o caminho.
Sou da terra do bom vinho
e também deste mar bravio,
sou de onde faz frio
e, perdão pelo orgulho,
mas em todo mês de julho
cada brasileiro deve
se deliciar em nossa neve.
Quem não gosta do mate amargo
do povo de sorriso largo
da mulher, que além de bonita,
se reconhece em Anita?
E quem, acaso, não é chegado
a um passeio por Gramado?
Lembro o verde daqueles matos
em volta da Lagoa dos Patos;
quero o gosto doce da pitanga
da bergamota e da moranga;
e o que mais me amarro
é na casa do João de Barro.
Nem a neblina tampa
toda a beleza do meu pampa.
E, nesta fala que se encerra,
os Campos de Cima da Serra
que a todos nós pertence.
Sou do sul,
tenho alma rio–grandense.
Bordini do velho Coronel
Na Bordini do
velho Coronel
de bem-te-vis e sabiás
tem colorido a granel
e árvore de flor lilás
Muitas e doces
heranças
dos antigos casarões
o vento ensaia danças
nos galhos dos chorões
Rua de tantas
ladeiras
e das mocinhas casadouras
em tardes bem faceiras
bordados de lantejoulas
Era jardim que
florescia,
eram lampiões e saraus…
A noite caíndo fria
no mármore dos degraus
A Bordini do
velho Coronel,
esquinas antes tão mansas
passa o tempo feito carrossel
dourado baú de lembranças…
Muitas mãos
Fico aos sobressaltos
e cada vez entendo menos
por que lucros tão altos
e salários tão pequenos?
Suspiro pelos
cantos
e não vejo solução
empobrecidos são tantos
até quando exclusão?
A situação
é séria
(são noites de insônia…)
De onde tanta miséria
em meio a Babilônia?
No erguer de
uma obra
trabalham muitas mãos;
por que tão pouco sobra
de toneladas de grãos?
Quando olho
ao redor
me vem logo a certeza
trabalho e suor
são mais que realeza
Num mundo ilimitado
e gente tão precária
escolhi o meu lado
tenho alma operária