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Perpétua Flores

Perpétua Flores regressa com muita emoção ao seu idioma, o do Brasil, o qual tem divulgado na Argentina através de seus livros publicados em Espanhol; dos programas radiofônicos e entrevistas com brasileiros como Jorge Amado, Carlos Nejar, Moacyr Scliar, Paixão Côrtes. Recebe visitas de brasileiros e os recepciona com calidez há décadas, como Nelson Fachinelli e 40 poetas, entre eles Nina de Almeida e Joaquim Moncks. Mais recentemente, Maria Clara Segobia e nosso editor Rossyr Berny.
Formou um grupo literário importante em torno dela. Dá aulas gratuitas de Português. É querida e respeitada. Exerce crítica literária. É um exemplo de trabalho e seriedade constante.
Agora sua voz poética volta à língua materna, como afirmou em um poema: "Idioma natal... quantos minutos de silêncio em tua memória!


Eu não deixaria de dar o testemunho de um escritor gaúcho a respeito do trabalho de uma pessoa que, para nós, é de extrema significação: Perpétua Flores.
Conheço-a há muito tempo. Acompanho seu trabalho desde jovem escritora. Realmente, é admirável o que ela vem fazendo. Porque a Perpétua é, digamos assim, uma personalidade internacional. Nascida no Rio Grande do Sul e residente em Buenos Aires – vindo com freqüência ao Brasil – estabeleceu essa conexão que é extremamente necessária. Por incrível que pareça, embora sejamos vizinhos da Argentina, o conhecimento que eles têm da Literatura Brasileira poderia ser bem maior. Há uma espécie de barreira cultural que, graças a pessoas iguais a Perpétua, está sendo superada.

Moacyr Scliar
Membro da Academia Brasileira de Letras

 

Breve balada para Perpétua Flores

 

O perfume

que paira sobre Buenos Aires e a vida

nasce no Brasil sulino.

São cores de campos, matas – flores.

Perfumes marcam o tempo – perpétuos.

Perfumes desconhecem fronteiras.

A todos limites invadem de alegrias.

 

Perpétua, a rosa-dos-ventos são flores.

Tua palavra se espalha para unir,

unes para universalizar,

em prosa, versos e encantos.

 

Perpétua, tua sábia palavra eterniza a arte.

Unes pátrias e unes seres.

Reúne palavras e magias em livros,

biblioteca humana que és.

 

Ensina-nos a sermos melhores

pela palavra e pelo convívio contigo.

 

Enorme poeta, escritora, grande mulher,

instala-se perene em nossos corações.

Cativos, nos deixamos encantar.

 

Brasil, Argentina, o Mundo.

Eis a base de onde teu amor humano

toma de assalto pacífico a vida.

 

Artista da palavra,

bailas o tango, o samba, a bossa-nova;

gingas verbos, sujeitos, imagens

- predicados dos grandes escritores.

 

Perpétua, tua frase aconchega-se

em nossos olhos irmãos, cérebro.

Perene, és Mulher; Perpétua, Flores.

 

Rossyr Berny

Buenos Aires, 21.05.06

 

 

 

Deus

 

Penso em Deus.

 

Que mente, que alma,

Que forma terá?

 

Como acende os mares

E a luz?

 

Se chora, se canta se reza.

 

Terá um anjo da guarda?

Temerá a morte?

Sonhará com a terra prometida?

 

Penso em Deus.

Se sorri. Se sonha.

Se tem amigos –

 

Se existe.

Se ama.

Se é feliz.

 

 

Sementes de luz

O riso se esparrama como faíscas
De um lago de cristal que se rompe na tormenta.
E tem asas e eco de pássaro campana.
O riso é um enxame de pirilampos, piscando
Seus olhinhos como as velas de aniversário que
Se apagam e voltam a acender.
O riso é lua que floresce entre as nuvens.
Conserto de castanholas.

Purificado ar quando ris, semeando em ocos de
sombras, punhadinhos de luz.

 

A menina que descobriu a terra

Fugi das grades
de braços distraídos
e sob túneis de altas pernas
engatinhei
até o soleado pátio.

Que havia dentro, no fundo do chão,
debaixo dos meus pés de lã?

Desfolhei a terra proibida
como flor extinta.

A terra acesa. A terra morna.
A terra viva.
A terra áspera.

(Minúsculos olhos verdes
duros como gumes
espiavam da erguida sombra
da parreira)

Com dedos de cambraia
arranhei a terra
com êxtase de garimpeiro.

Menina,
descobri a terra.

Provei a água,
dura, vermelha terra amada,
com meus dentes de leite.

Tive nas minhas mãos
de poeta,
um punhado
de sementes do Mundo.

   

 

Simbiose

Mar, cova e abismo,
submerso céu.

Movimento contínuo
se precipita
nas minhas margens.

Seca, estática, estátua,
eu que fui mar.

Minha cabeça, lua cheia.
Minha boca um castiçal
aceso em oferta a lemanjá.

Envolta em verdes lençóis
um redemoinho de luz
me incendiava.

(Sempre devolvi os corpos).

Sou uma sombra de sal.

Quem mergulhará em mim,
avivando as águas?

A espera de um náufrago
deito na areia rósea.

Como o mar, não sei morrer.

 

Passeio

Nas ruas de Santo Ângelo
anda a lua cheia nua
e o sol, de pés descalço.

A flor de ipê é ave
que passa o dia na rua.

O povo tão distraído
caminha em cima do sol.

As ruas de Santo Ângelo
são linhas sublinhadas.

São as rugas de um século
nas faces da cidade.

As ruas só param nas esquinas
para conversar sob o olhar
arregalado das sinaleiras

As ruas de Santo Ângelo
são braços de parentes
e cordões umbilicais.

As ruas de Santo Ângelo
são varinha de condão.

 

Valor R$ 15,00

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