Aqui não estão todas as receitas criadas pela minha avó.
Não caberia tudo em um livro só. Ainda mais que cada vez
que ela revisa uma, acrescenta um segredinho, o que transforma uma simples
leitura em uma minuciosa correção. Uma das minhas tarefas
na organização deste livro era a de contar um pouco da
história da Dona Síria, da família, do trabalho,
da carreira. Gravamos mais de uma hora de conversa para que não
faltasse nenhum detalhe. Mas decidi que o leitor poderia fazer uma viagem
junto comigo, para entender a força que moveu este projeto.
Por esses motivos, vamos falar do ingrediente principal, que originou
cada receita e guiou a carreira e a vida da minha avó: o talento.
Talento não se adquire ao longo da vida, se nasce com ele. Talento
não se compra, vem de berço. Talento não se copia,
é autêntico, único, singular. E foi através
do talento que a minha avó, a Dona Síria, filha de uma
alemã e um árabe, começou a carreira gastronômica.
E foi com talento que ela, junto com meu avô, o Seu Otto, deu
seqüência ao trabalho que há mais de 30 anos começou
pequeninho e foi crescendo na cidade de Osório. Lá no
início da década de 50, foi aberto o caminho com destino
à confeitaria Solar, aos bolos majestosos de casamento e aos
jantares importantes.
O armazém na esquina da João Sarmento com a Getulio Vargas
ficava junto da casa, onde eram feitos pães, bolos, biscoitos
e roscas para vender no balcão. Tudo pelas mãos da minha
avó e com a ajuda da primeira auxiliar de cozinha que teve, uma
ex-detenta que havia acabado de cumprir pena e tinha três filhos
para sustentar. A Dona Nena teve sua segunda chance, e a Dona Síria,
a oportunidade de ganhar uma companheira de muitos anos. Nos anos 50
Osório já não era mais chamado de Conceição
do Arroio e ganhou o novo nome em homenagem ao patrono da Cavalaria
nacional, Marechal Manoel Luiz Osório, escolhido pelo então
interventor nacional, General Flores da Cunha. No período, até
meados de 1960, o município, assim como todo o litoral norte
gaúcho, estava em desenvolvimento econômico, cultural e
educacional.
Já o casal, recém vindo de Santo Antônio da Patrulha
resolveu iniciar a família, que resultou em seis filhos, nove
netos, uma nora e cinco genros. Essa fase vale um pouco de atenção.
Minha avó se orgulha de ter criado e educado todos os filhos
através do trabalho junto com meu avô. Ela sempre se emociona
quando fala que as coisas eram difíceis, mas que eles foram crescendo,
e aos poucos, conseguindo dar conta das necessidades da família.
A primogênita foi a Nara, depois veio a Maristela, minha mãe,
a Simoni, a Lóris e os gêmeos Mauro e Marinez. A Dona Síria,
que já era costureira e confeiteira profissional, muitas vezes
atuou como professora para ajudar na renda que vinha do armazém,
afinal eram seis crianças já cheias de energia e personalidade,
que com certeza herdaram dela e do Seu Otto. Mas o casal conseguiu incentivar
ao estudo e encaminhar os filhos para a vida. Cada um na sua área,
com suas convicções e seus objetivos, às vezes
divergentes, afinal é impossível uma família de
oito pessoas concordarem em tudo, mas todos eles souberam cultivar os
valores e o caráter.
Com os filhos crescidos, começaram as especializações,
a principal delas, em bolos artísticos, que sempre foram a menina
dos olhos dessa confeiteira. E foi na década de 70 que o casal,
mais maduro e experiente no ramo da gastronomia, arriscou e acertou.
Aliado à confeitaria Solar, nasceu o Buffet Requinte, que ficou
conhecido pelos arredores do litoral gaúcho e até fora
dele, pela qualidade, elegância e, principalmente, pelo sabor
ímpar dos pratos. Nesse período, a ousadia da Dona Síria
só aumentava. Era da festa de primeiro aninho até a confraternização
dos juízes gaúchos ou a recepção particular
com direito a show de Agnaldo Rayol. Impossível contar o número
de jantares, casamentos, comendas, aniversários que ela organizou
e meu avô administrou. Quantos quilômetros a Fiurino do
Seu Otto rodou entregando bolos, salgados, encomendas, louças
para as festas, não tem como mensurar. Agora, não há
osoriense que se preze que não conheça o Seu Otto e a
Dona Síria, que não tenha provado um bombom de morango,
encomendado uma ceia de natal, passado para comer uma fatiazinha daquela
torta de aniversário que deixou água na boca ou até
mesmo para trocar um minutinho de conversa e falar sobre a vida.
Isso é talento. É a possibilidade de deixar marcas naturais
na história de tantas pessoas diferentes pelo simples prazer
de fazer o que se sabe, o que se nasceu para fazer. Porque quando um
trabalho é feito com o coração, ele é eternamente
lembrado e passado de geração em geração.
Eu aprendi; minha família, minhas tias e meus primos aprenderam.
Meu tio mantém vivas as criações da minha avó
aprimorando a confeitaria. E vocês, que agora conhecem um pouco
mais da essência de cada receita que foi escolhida para estar
aqui, sigam o caminho da Dona Síria: unam as pessoas através
da arte de cozinhar e façam cada um desses segredos com a mesma
dedicação que eles foram feitos desde a primeira vez.
Porque aqui, os ingredientes não foram transcritos de um caderno
de anotações. Cada item que vocês vão consultar
veio de uma memória viva de 82 anos, que guarda com perfeição
cada um dos frutos de sua criação.
Renata Borges Colombo
Agradecimentos
A arte de cozinhar
envolve lembranças, afeto e dedicação. O preparo
de uma receita é um ato de amor e doação. Aroma
e sabores são combinados, com descobertas de sensações
vindo de outros continentes, que muito me ajudaram percorrer os caminhos
da gastronomia, na arte de cozinhar e preparar mil delícias,
tanto para donas de casa, como para famosos goumerts.
Conhecendo um pouco da minha história você está
se preparando melhor para o seu dia de trabalho, seja na cozinha, ou
em qualquer outro lugar, para receber os amigos ou mesmo no aconchego
do seu lar.
Foi pensando em você que elaborei este primeiro livro de receitas
vaiadas as quais durante cinqüenta anos de trabalhos nunca deixei
de fazer o melhor, a cada dia; hoje me considero uma profissional competente
e empenhada em realizar um bom trabalho.
Tenho certeza de que este livro vai trazer muitas surpresas, basta fazer
tudo com muito amor...
Construí uma história de conquistas só é
possível quando temos ao nosso lado pessoas especiais, e que
juntos não medem esforços para que tudo se realize da
melhor forma possível, sempre fui acompanhada com muito estímulo
por meu esposo Otto e por meus filhos, Nara Raquel, Maristela, Simoni,
Loris, Marinez e Mauro a eles meu reconhecimento por tantos momentos
de um tempo que não volta mais e que foram trocados pela busca
de um dever a cumprir a meus cinco genros e nora, a todos os netos e
toda equipe de funcionários que desde sempre me acompanhou neste
trajeto de realizações, e a todos os amigos, que para
não esquecer nenhum não citarei nomes, minha eterna gratidão.
Em especial minha irmã Marion, grande mulher, a ela devo muito,
pois foi meu alicerce nas lindas e enormes decorações,
dos mais belos jantares e festas.
A Deus por ter me privilegiado com a vida e o dom da culinária.
Síria Nehme
Borges