AMOR TSUNAMI

Rossyr Berny

120 páginas 14 x 21 R$ 15,00

 

O amor tsunami em Rossyr Berny

 

     Eis mais do que uma nova obra de Rossyr Berny, poeta, romancista, novelista, historiógrafo e editor.

     Seguramente um vencedor. Um exemplo de vida de pertinácia, de quem nunca se deixou levar pela vida em "brancas nuvens". Trabalho, dedicação, entrega ao coletivo, ao solidarismo. A começar por uma tropilha de irmãos. Doze para ser mais preciso. Dezoito, se tivessem sobrevividos todos às precariedades familiares. Filhos de um carroceiro, "seu" Ervandil, e de uma lavadeira, Dona Maria, dedicada mãe que já aparecera no confessionário poético em "Os 12 Apóstolos de Maria". Mas os encargos da família pobre e digna estão vivos, a balizar no poeta que é preciso perservar no trabalho, obedecendo a visão solidarista que haurira já na infância:

 

"Do último inverno que lembro

buscando pasto no campo inteiro-vidro

eu era feliz repontando montarias e vacas

 

Trazia o cavalo à carroça do pai

que trariam ao meio-dia algum alimento

à mesa da quase vintena de filhos, mãe, avós

 

Do último inverno que lembro ainda menino

o rigor das precariedades

nos punha solidários no mesmo ninho quente..."

 

("Não verão maior", pág. 100)

 
 

Sempre a afirmativa lírica, desejosa, compensatória dos desamores. Alias, Rossyr Berny é o poeta dos desamores, do sofrer com o amor impossível, a ponto de generalizar ao universo a sua visão pessoal. Veja-se o seu livro "Desuniverso", de 1978, o segundo de uma trajetória iniciada com "O Homem-Autômato", de 1976.

     Esta diferença ótica, de visão do mundo dissoluto, do amargor intrínseco à criatura humana, faz de Rossyr Berny um criador poético gauche. Aplica-se finalisticamente a Rossyr o que Carlos Drummond de Andrade em sua poesia – coloquialmente – criava para si e que se universaliza para o andar no mundo daqueles que, por correrem à margem dos parâmetros de normalidade, baliza a ótica surreal dos condenados a pensar : "Vai Carlos, vai ser gauche na vida."

     O "tsunami" começou cedo em Adão Rossyr Berny de Oliveira, menino rico de vivências suburbanas em São Gabriel, caminhos da fronteira oeste, onde as diferenças sociais são ciclópicas e só tem vez o latifúndio e seus donos.

     É claro que o vocábulo nem existia nos idos da década de sessenta, quando o espiritual entronizava o poeta após as primeiras letras e lhe coçava o bolso à busca de alguns pilas pra comprar guloseimas.

     Tsunami, o fenômeno marítimo que dizimou duzentas e cinquenta mil pessoas na Ásia, ocorrido no final de 2004 (“2005 inaugura-se / regurgitando corpos asiáticos às praias) e que confrangeu o mundo, entranhou-se também, nas "juntas" de pés e mãos do menino carente de São Gabriel. Os medos, as necessidades vitais, a urgência da paz para um mundo permanentemente em guerra (por valores comezinhos espiritualmente), a ação.  destruidora do fenômeno marinho fez com que o poeta desse ao livro o titulo "Meu Amor Tsunami". Dicionariza o poeta o barbarismo, adotando-o em sua dialetal alienígena, a grafia nas letras brasileiras. E o curioso é que ele acopla a barbárie fenomenológica ao AMAR.

     Conota e denota o quanto a perda da amada corrompe, macula, afunda e destrói os seus valores de posse na concepção mais fática e machista.

 

"Cadê o amor que estava aqui no peito?

Agora cremado não é nem mais cadáver

para exumação e autopsia

Teria mesmo existido

ou só foi falso braseiro o tempo todo?"

 

                ("O céu que estava aqui', pág. 80)

 

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