Muitas centenas de poemas,
talvez milhares, Rossyr Berny deve ter escrito para chegar ao sumo desses mais
de 163 selecionados para esta obra que tão bem o apresenta como um dos mais
fecundos poetas brasileiros.
Construtores de precipícios
reúne onze livros, afiados até a sua extrema agudeza. “Onze partes” corrigirá
o leitor, iludido (ainda bem) pela prestidigitação de um poeta que a cada
seção extrai uma unidade temática e um olhar sempre de viés sobre o mundo
(porque em busca do ângulo mais inusitado) e de frente (porque buscando o
enfrentamento dos temas que perturbam mesmo aquela poética em linhas mais
sociais). A questão é que tais unidades, cada uma coesa, extinguida na sua
última quintessência, compõem obras isoladas, que Rossyr convoca para
oferecer-nos um panorama único: trinta anos de uma carpintaria poética que
busca, a cada novo título, renovar-se.
A força de sua denúncia do
mais íntimo (radicalmente à sombra do mais exposto) aflora já no primeiro
bloco de poemas, no trecho “Perdemos há muito / braços para abraços e
aplausos”. Consideração grave se a atenção do leitor recair sobre o aspecto
essencial do membro superior humano como algo destinado a construir, antes de
qualquer distração – ela também, sim, necessária.
Salvação
A lírica moderna podou toda
sua extrema candura e armou-se de cristais que, embora a façam resplandecer,
gritam sua indignação e apontam, implacáveis, verdades de condenados a uma
ciência que nos conduzirá à morte. Mesmo em vida. “Dêem chance de contato /
para a salvação terrestre // Ainda que sejam zelos / de deuses para amebas”. O
planeta perdeu seu verniz de mundo maiúsculo e tornou-se barco à deriva,
carregando náufragos numa nau onde os remos são desencontrados.
Dessa condenação, exatamente
desse sentenciamento a que o homem não escapa por sua própria consciência,
extrai Rossyr um humor amargo, como o do poema “Para morrermos de vergonha”,
onde o poeta declina de qualquer tentativa de plantar uma semente, nem que
seja de mínima esperança – uma vez que o presente, em vez de brotar,
moralmente mingua.
O poeta sente como ninguém
nunca sentiu a microscopia do momento: “Cada instante deslizado na pele”. Eis
um retrato duro do tempo, tempo que o autor de Construtores de precipícios
chama de “antitempo”. E poderia achar palavra mais adequada, se a cada passo
nos são extirpados espaço e circunstância?
E para se salvar, busca a
aguda lucidez de enxergar não apenas o abstrato, mas a concreção intempestiva
do frio real, que o dobra (a este real sem fantasmagorias, o mais inflexível
dos reais) sobre si mesmo, mas não o impede de identificar o escuro mais
escuro das noites, “cortando-me os pulsos”. Invernias assim matam, pela
ausência de calor físico, qualquer ação mais calorosa, mesmo as morais,
sociais, mesmo aquelas que procuram a labareda que seja capaz de iluminar uma
decisão de mínima doçura e intensa coragem.
De madrugada, numa rodoviária
(no poema “Kafkiano”), há o espanto com a amanhã se fazendo. O poeta se
sobressalta, sem demonstrá-lo a não ser em seus versos quase diretos,
certeiros como quem busca um alvo (nós).
A rotina não perdoa. O poeta
não perdoa o dia-a-dia se este esconde o dia, pleno mesmo em seu limite de
dia, 24 horas apenas e gestos repetidos. Mas o cotidiano cruel, a forjar na
busca de felicidade um neologismo que a condena, palavra traiçoeira pelo
início ameaçador no que tem de feroz (“fericidade”), feroz ou ferina. Tanto
faz, o que é duro de constatar.
Então, a que salvação se
aspira?
Ora, exatamente essa que o
poeta atinge em cheio, mesmo exaurido dos eflúvios da existência, capaz de
engolir o dia sem digeri-lo nem vomitá-lo, numa imagem forte.
Salvação? Sim. Salvar-se é não
se sentir incapaz ou se sentir constrangido a um sintoma grave. E o sintoma
não vem. A não ser em forma de poema. Rossyr resiste.
Vôo condenado
No poema “Aberta temporada de
caça”, o desfecho não poderia ser mais patético: “Há desovas sem nenhuma
chance de vôos”. É o poeta preparando o leitor para o que há de vir: e o que
há de vir é o melhor do livro. Leia, releia e releia ainda outra vez. E recite
aos amigos: “não temos a inocência do verme / – que nem se sabe verme”. Nesse
poema (“Nem ao nível das serpentes”), sob todos os aspectos perfeito na sua
implacabilidade, nossa natureza é posta à prova. Há, em diversos níveis, a
cruel beleza do corajoso gesto do poeta a avisar: nem é bom pensar – o poema,
isto é, a realidade, são incendiários, e pausas não são esperas. Conselho:
pare alguns minutos a cada parte deste livro-flagrante – o leitor, afinal,
também precisa respirar.
Mais adiante, em “Vestida de
napalm”, Rossyr, ou seu narrador, avisa: “– dou-te notícias do mundo neste
poema”.
“Voltar a ser pássaro” conta,
num tom de confissão arrependida, que o poeta já foi ave e agora, humano,
precisa melhorar em humanidade para retomar a condição de pássaro. Tem amado a
humanidade em sua dor e sabe que esse castigo pode transformar a vilania em
ressurreição. Renascerá? E transformado?
Possivelmente não. O mundo não
lê milagres. Mas o poema “Salário-mínimo brasileiro” é, em poesia, um pequeno
milagre. Vale ser reproduzido e posto na parede. Como um aviso dos mais
valiosos.
A estratégia de Lúcifer
A guerra é um dos temas mais
presentes nessa antologia onde o homem, a quem estamos acostumados a ver
cantar suas dores, canta aqui as dores alheias – e, por isso, mais suas ainda.
Se fossem apenas dele, particularíssimas, poderia controlá-las. Ou
suicidar-se. Mas engolfando o planeta, incluem-nos sem deixar de incluí-lo. E
somos todos condenados. E somos todos munição. Esta última, expressão exata de
um dos poemas do livro.
Uma amostra da síntese onde a
poesia, embora lide com material bélico, não perde de vista a beleza de sua
forma e de sua voz: “madrugada amortalhada / não mais orvalha lírios”. E,
sendo Rossyr um artista seminal na direção da justiça entre os homens, não
surpreende que proteste: “Inútil o poema / acaso não cegue lâminas / acaso não
rebente em frutos”.
Tantos são os rumos seguidos
por tal poética, que cabe enumerá-los: o amor, a política, a História, e até o
humor. Um exemplo: “queda-de-braço”, que vale ser citado inteiro: “Meço forças
comigo / A mão direita e a esquerda // Meu peito e eu / meu coração e eu // a
perna direita e a esquerda // Meço forças comigo / Meus ombros e eu // No
escuro no sonho no espelho no bar / homens se encaram e se decifram // Meço
forças com Deus / Queda-de-braço / Olho na pupila do olho // (Confissões e
acertos de contas) // Quem chorar primeiro / paga a cerveja dos dois”.
Claro que é um sorriso doído, o de quem sabe o tempo todo, desde
um dos poemas inaugurais desta obra madura (“Curriculum vitae”): “Dispo o
manequim dos anos / com fúnebre sensação / de vestir meus mortos”.
Amor tsunami
O poeta, que no percurso do
livro esgrima, digladia-se (ou imola-se?) com a besta bélica
– encontra intervalos nos campos de batalhas para a
alcova: "Dos homens que sou / o menos amoroso é todo tão teu / que será até de
nem eu mais ser meu". Sua doação é sempre recompensada: As mulheres que
amou "Somadas / plantaram-me paraísos / Ao mais leve toque / me abrem róseos
céus".
Tsunamis combalem a Ásia e seu
coração. Busca reagir, auxiliar, também sente abandono: "Aos
sobreviventes do pavor /envio roupas, cestas básicas, água potável / Mas
sacrificar o que mais a ti? / De meu amor fazes cinzas e insobrevivências"
Poderoso e avassalador como o
amor que oferece é o mesmo que sente o impacto: "Por
seres bomba e tsunami / ao recolheres teus braços / em furioso repuxo e abraço
medonho /redobras a devastação sobre a Tailândia / Sobre a Indonésia Sri Lanka
Índia Malásia África /Sobre mim // Meu amor hiroxima, meu amor tsunami". E
estamos conversados...
Trinta anos de
poesia; imagine-se quantos de vida (o que transcende as cronologias). Vida
transfigurada, poetizada, isto é, multiplicada: como toda vida de poeta acaba
sendo, uma multifacetada vida dentro da própria vida de homem. A vida humana,
rotineira, é insuficiente para a do poeta que carrega esse homem, poeta que
sempre gera irmãos gêmeos desse homem que o veste, homem destinado a escrever
eternamente porque conduzido pelo poeta. Já tem trinta anos essa eternidade.
Paulo Bentancur
Escritor - Poeta - Crítico
Rio de Janeiro - setembro
de 2006