Violência
versus solidariedade
Mencionar
o nome de Marina Pessin é referir-se à solidariedade
em pessoa. Talvez seja essa sua característica mais marcante.
Aquela que a faz admirada, respeitada e querida por quem tem
o prazer de com ela conviver. Normalmente, quem escreve um prefácio
ou a apresentação de um livro tece quase como
um dever - palavras elogiosas ao autor, mas, no caso de Marina,
comentários favoráveis ao seu perfil humano não
se esgotam no simples ato de gentileza.
Traduzem
o merecimento de uma pessoa que, neste simples e despretensioso,
mas muito útil, relato, esboça não apenas
a fidelidade a fatos vividos e sofridos, segundo a ótica
subjetiva de quem involuntariamente deles participou, mas também
exibe a face muito humana de alguém que, ao captar a
realidade, cruel, dolorosa, insólita e profundamente
indesejável de um seqüestro, como uma de suas protagonistas,
está superando o baque psicológico do acontecimento
e pode, hoje, contá-lo para que todos nos ajudemos a
que nunca mais se repita.
Chama
a atenção neste livro a profunda fé religiosa
de Marina, demonstrada não só na citação
das orações que por ela foram invocadas durante
as 27 horas trágicas do fato policial, mas na sua sincera
disposição de ser solidária, num momento
de grande tensão e até de enorme aflição.
Não há no livro qualquer referência recheada
de sentimentos menores de vingança, ódio e ressentimento,
o que seria natural diante de nossa condição humana,
ainda muito afastada dos mais sublimes valores da existência.
0
seqüestro - justificado por motivos ligados à realidade
econômica e social do Brasil , como fez seu autor - é
sempre uma atitude criminosa, execrável aos olhos das
pessoas de bem, de bom senso, que respeitam a dignidade humana
e a vida. 0 fato em si, condenável por todos os aspectos,
não precisa ensejar que venhamos a nutrir o lado mais
obscuro que todos trazemos no íntimo, aquele com que
facilmente condenamos os outros, muitas vezes nos negando a
fazer autocrítica.
Vale
muito este livro como lição e como memória
para que nos esforcemos muito e muito mais do que temos feito
para banir atos de violência, não apenas pela repressão
das instituições policiais, mas, acima de tudo,
pelo esforço de ajudarmos a formar uma sociedade socialmente
mais justa, mais próspera e mais digna de acolher a todos,
sem distinção, sob hipótese alguma.
Porto
Alegre, 20 de outubro de 2003
Roque
Jacoby
Secretário de Estado da Cultura