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Aos 82 anos de idade Miguel Russowsky é
um moço poeta de 82 anos. Indelevelmente, porém, um receio
perpassa seu novo livro: o de que a energia física não acompanhe
tanta vitalidade poética.
Tranqüiliza-te, poeta. A inspiração empresta ao corpo
a necessária saúde; e, este, oferece à arte o tonificante
dom do verso imbatível.
Nestes tempos de desvairo e atropelos, mesmo um jovem versejador sente-se,
por momentos, um vulcão com temores de súbita extinção.
Medos passageiros. Pois poucos sentimentos quanto a poesia são
tomados de igual perenidade.
Um livro bastante singular este Cantares de um vulcão
quase extinto. Em grande parte do livro, abate-se sobre
o poeta a tristeza da perda da filha June, sua parceira de versos nesta
edição. Tristeza e revolta transparecem. Até porque
é condição da vida os pais partirem antes dos filhos.
Quando o contrário, a dor toma conta dos dias. O tom elegíaco
e ferido respira fundo e toma-se de alívio. No mais é a
soma de perda, saudade, angústia. E revolta. Mas mesmo dos versos
sangrando surgem cicatrizes de luzes pelo amor que por toda a vida do
poeta tem espargido abundantemente. As sete partes do livro transparecem
amor, apesar do pranto que notamos em “As lágrimas abrigam-se
no lenço... / O lenço faz sigilo de imediato... A insônia
apalpa o seu perfil imenso, também temos a esperança em
“E descansar por quê? — pergunto pasmo — / Se
há novos sonhos, cheios de entusiasmo / num velho coração?...
(o meu) — Que bom!”
A simbologia da “extinção” que o poeta traz
à tona para quase corporificar sua dor, é, em verdade, um
S.O.S. para que seu cantar seja salvo pela própria energia ressuscitava
da vida e da poesia. Lazárica ressurreição merece
o amor no coração do poeta.
Cantares de um vulcão quase extinto se reacenderá a cada
dia, na voz de cada amanhecer, em cada boca que se oferece ao beijo e
a cada frase que se ilumina em verso. Milagre possível pela existência
de poetas iguais a Miguel Russowsky.
Rossyr
Berny
Editor
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outros trabalhos
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Miguel Russowski
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June
Russowsky
June
é uma poeta impressionante. Escrevo é por ser, presente,
futuro. Pretérito é onde descansa seu corpo, matéria
preterida em vida por um amor marital perdido, imerecedor de seus dias.
Sua vida, porém, floresce lumi-nosa nestes poemas. Permanecerão
estes textos que, para júbilo dos pais, Miguel e Victória,
e das filhas Liana e Luciana, aqui se reúnem sob o título
de uma verdade sua: A dor não dorme. Poemas da filha somados em
livro aos poemas do pai – poeta consagrado, premiado como poucos.
Uma poeta permanente haverá de ser June Russowsky. Garante isso
a riqueza de quem escreve “Este meu rosto triste”:
“Quando nasci,
já as lágrimas que eu haveria de chorar
me vinham de outros olhos.
Já o sangue
que caminharia em minhas veias,
destinado ao futuro, era um rio.”
Mas também a exaustão do choro busca a esperança,
a fé revitalizantes:
“Tenho um encontro marcado com Deus.
Ele encheu minhas mãos de estrelas,
os meus olhos de céu,
e minha alma de luz...”
June, “a que não dormia,” não deixará
dormir estes poemas no esquecimento dos cantos escuros da vida, do amor.
Lidos ou na oralidade dos seres, continuarão na atemporalidade,
mostrando um coração exposto, um sentimento eviscerado,
mas com olor e cores que somente os benditos – iguais a ela e este
A dor não dorme – sabem anunciar a todos na voz de Deus,
o que também não dorme.
Rossyr
Berny
Editor
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June Russowsky
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PREFÁCIO
Caro leitor:
Este é meu nono livro de poesias. Depois de Confeitos de Quimera,
editei em parceria com José Fabiano, meu irmão de sonhos,
O Profano e o Sagrado (trovas e sonetos) que, como os demais, deve estar
em mãos dos apreciadores do gênero.
Desde então, os trabalhos que me pareceram melhores, continuei
enviando a concursos e tendo percepção da boa aceitação
e para que não se extraviassem, resolvi pô-los em livro.
Aos 82 anos, temo que meu entusiasmo pela poesia não encontre um
físico à altura, para dar-lhe a forma mais conveniente ou
bela que pretendo, ou gostaria. Mas vou tentar... enquanto tiver fôlego.
O soneto e a trova são formas fixas de poesia que continuam com
grande vitalidade e cultivo. Nelas sempre procuro dar vazão ao
que ocorre no dia a dia. Vez em quando divago em poesias livres e modernas,
mas me sinto como peixe fora d'água nestas modalidades, posto que
neste livro incluo algumas.
Minha filha June (1952-1993) “A que não dormia”, –
soneto que já publiquei em outro livro – também praticou
poesia (livre) de ótima qualidade. Várias delas escolhi
para valorizar o conjunto.
June sofreu um acidente de avião, foi abandonada pelo marido, que
era quem pilotava o aparelho. Ficou paraplégica, com duas filhas.
Ainda tentou trabalhar no ensino dando aulas de inglês, mas fragilizada,
passou a morar em nossa casa até que a morte a levou.
Seus escritos são, na maioria, desta época de sofrimento
e os leitores perceberão nos seus versos, toda a amargura que possuía.
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