DISCURSO DE POSSE DE ROSSYR BERNY
NA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS
Porto Alegre/RS, 28 de agosto de 2003, Solar dos Câmara.
"Estrela da vida inteira Da vida que poderia ter sido e não foi. Poesia, minha vida verdadeira" "Ó bendito o que semeia, livros, livros à mão-cheia e manda o povo pensar. O livro caindo n'alma É gérmen que faz a palma. É chuva que faz o mar" “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores. Há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons. Porém há aqueles que lutam toda a vida; Estes são os imprescindíveis.” 1 - Saudação às autoridades Tomo emprestado os inspirados versos de Manuel Bandeira, Castro Alves e Berthold Brecht, nesta ordem, para agradecer e homenagear; para receber com ternura e esperança, cada um dos presentes, todos admiráveis: - Exmo. Sr. Doutor Hugo Ramírez, mui digno Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras; - (...) Minhas palavras, neste ato monumental, haverão de ser somente cores, enlevo, fraternidade desabrochada de cada sílaba, de cada frase, de cada idéia. Esperança, esperança, esperança e justiça haverão de pontuar, de nortear este discurso. Haverei de encontrar razões para pensar que o bem se sobrepõe ao mal; que o último respirar da vida é mais alentador que o primeiro, pois grande é o orgulho com que abro, respeitosamente, as portas desta casa acadêmica, pois aqui habitam, quando completo o quadro, 40 homens e mulheres de singulares letras. Por certo, 400 ou 4.000 esperam sua merecida vez. Assim tem sido há uma centúria. E assim haverá de ser por fecundos e renovados séculos. 2 - BARBOSA LESSA – Ocupante anterior da Cad. núm. 5 "Se Deus, sem pressa, se desse ao luxo de escrever sobre o Rio Grande do Sul, seria pela mão de Barbosa Lessa. Ainda que em tempos recentes muitos tenham entoado 'Ucho ucho ucho o Papa é gaúcho' cantou o coro maior: 'Sem essa sem essa, o Papa gaúcho é Barbosa Lessa". Com este poema "O grande coração do Rio Grande" que escrevi e lhe recitei, ainda em vida e recebido com o largo sorriso de modesta concordância -- reafirmo minha completa admiração àquele centauro literário dos pampas: Luiz Carlos BARBOSA LESSA. Nasceu em uma chácara, pertencente à cidade histórica de Piratini, em 13 de dezembro de 1929. Aos 12 anos foi estudar em Pelotas e em 1948 muda-se para Porto Alegre, vindo a cursar o clássico no Colégio Júlio de Castilhos. Em parceria com Paixão Côrtes, Glaucus Saraiva, e outros poucos, limparam das cinzas do esquecimento a cultura gaúcha, limparam do pó e do mofo nossa mais cara tradição. Jogaram luzes nos cantos escuros, limparam a casa e trouxeram para a sala-de-visitas nossa história remoçada, criando um dos movimentos mais organizados e reconhecidos no mundo inteiro: o tradicionalismo gaúcho, representado por milhares de Centros de Tradições Gaúchas, para nosso orgulho. Criado o movimento em 1948, por estes bravos, já em 1950, com apenas 20 anos de idade, Barbosa Lessa já era Patrão do 35 CTG. Formado em Direito pela Universidade Federal do RGSul, em 1954, não exerceu a profissão, como sonhara seu pai, ao mandá-lo estudar na Capital gaúcha. Preferiu ir morar com a família em São Paulo, e não houve setor da comunicação no qual não tenha trabalhado, ao longo de 20 anos. Por lá também recebeu, em 1959, o principal prêmio da Academia Brasileira de Letras por seu romance, “Os Guaxos”. Em seu retorno ao Estado, teve passagem pela Revista do Globo, onde trabalhara quando rapazote, Diário de Notícias, cronista de Zero Hora. Quando Secretário da Cultura do Estado, no governo de Amaral de Souza, em 1964, ajudou na idealização da Casa de Cultura Mario Quintana, espaço nobre da cidade que estava destinada a ser um Banco. Depois, cansado da agitação citadina, foi morar na paradisíaca Reserva da Água Grande, interior de Camaquã; mais, no meio do mato, cercado de muitos bichos, índios, onde o bugio é delegado, como dizia. Barbosa Lessa foi autor de 61 livros, incluindo prosa longa, conto, crônica, peças de teatro, poesia, ensaios, textos jornalísticos e muita pesquisa, sobretudo no campo da música. Foi patrono da 46a. Feira do Livro de Porto Alegre, no ano de 2000. E, na virada deste novo milênio, foi consagrado como um dos gaúchos mais importantes do século, em promoção da Rede Brasil Sul, o que veio a confirmar o reconhecimento geral à sua obra e à sua existência vitoriosa. De 1929 a 2002 transcorreram 72 anos pela vida e pela biografia de um homem inesquecível, correndo por suas veias e campos a própria história do Rio Grande do Sul, que ele, como poucos, ajudou a colocar nosso Estado no mais alto conceito cultural do Brasil. Faleceu por câncer no pulmão, a uma hora da manhã do dia 11 de março do ano passado no Hospital Nossa Senhora Aparecida, em Camaquã, sendo sepultado na sua sempre lembrada e primeira capital farroupilha, Piratini. Privilegiado por ser um de seus últimos editores, publiquei três títulos seus e tenho a publicar o original inédito, que me foi entregue de uma maneira singular: Nos últimos tempos, quando vinha a Porto Alegre para tratamento de quimioterapia, costumava chamar-me para uma prosa no apartamento do Hospital Moinhos de Vento. Para meu espanto, ao lado de sua cama no Hospital, costumava presenciar uma cena arrepiante: pelo braço esquerdo, estendido, recebia tratamento para combater o câncer pulmonar. E, com o direito, fumava, envolvendo-se em uma nuvem cinza de fumaça. Lá pelas tantas, em um daqueles dias me falou: Rossyr, tenho três projetos, e tu vais dizer qual vou tocar primeiro. Enumerou os três e eu não tive dúvida, é este, a edição do livro que escreveria, chamado: "Prezado amigo Fulano. 1950/2000 - Meio século de correspondência”. A estrutura do livro seria formada de correspondências enviadas e recebidas, entremeadas com um narrador em terceira pessoa. Bem ilustrado com fotos importantes e históricas. Isso deveria ser iniciozinho de janeiro de 2002. Dali a umas duas semanas voltavam ele e dona Nilza ao hospital para nova sessão de quimioterapia. Novamente ele com medicação no braço esquerdo estendido e com o direito a construir um cobertor de espessa fumaça. Disse-me, entregando-me 47 folhas de papel-jornal, datilografas em sua mágica e perpétua olivetti, e muitas fotos: -- Vamos fazer o seguinte. Publicaremos esta primeira parte para a metade deste 2002, que vai mais ou menos a história de 1950, a 55, quando fui para São Paulo. E preparo a outra parte para o ano que vem. E lá se foram os dois, naquela tarde para os confins paradisíacos da Água Grande, no meio do mato. Eu, já em casa, com aquele material na mesa, fui tomado de um profundo encantamento, como que manuseando uma parte inédita da Bíblia, escrita pelo próprio Cristo. Fiquei extasiado por várias horas, na leitura e releitura do texto. Já imaginando uma grande festa para lançamento do livro -- até que fiquei em estado de espanto: Claro que a má saúde não lhe daria tempo de escrever a outra parte do livro para o próximo ano. E agora? Eu só tinha ali, comigo, escrita a metade de sua riquíssima história que se confundia com a própria história do Rio Grande do Sul. Mas que poderia ficar incompleta. Mais vinte dias e volta meu amigo para outra sessão de medicamentos. Como justificar a ele a urgência de escrever a outra parte de suas memórias, sem deixar-lhe transparecer meu receio com seu tempo de vida? Acho que lhe cheguei de bom jeito, abordando o assunto pelo lado bom de montar, por que disse a ele: -- Amigo Lessa, como dizes querer dividir o livro em duas partes iguais? Como é que um volume pode relatar cinco anos de tua vida e o segundo vai relatar quarenta e cinco outros anos? Seu silêncio me fez entender que minha voz não havia ultrapassado a cortina de fumaça que o envolvia. Mas tinha ouvido. Só que não disse nada. Ou realmente não teria ouvido??? Vi que estava cansado e o deixei naquele estado de bêbada e nicotínica prostração. Para minha surpresa, em sua nova e última vinda a Porto Alegre já não fora para o Moinhos de Vento, mas para o Hospital da PUCRS. Fui chamado pela gentileza da dona Nilza, o encontrei entre um estado de profundo abatimento e uma busca de ânimo, inclusive ensaiando gracejos com a médica que o examinava. Tremi ao saber que fizera uma pequena cirurgia que sutura nervos que levam as dores ao cérebro e que fazem o paciente reagir em busca da cura e defesa do organismo. Sem dor, sem estímulo, o organismo não reage e entrega-se ao fim. Meu Deus! Antes de um novo amortecimento na cama, ainda deitado, conseguem precárias forças para reagir, pegando um maço (não de cigarros, como das outras vezes, para fumar), mas de folhas de papel jornal. E entrega-me, agora sim, sorrindo: -- Aqui está a outra parte do livro. Terminei! E dormiu, antes que visse meus olhos profundamente inundados de dor. Curiosamente, por iniciativa do valioso bibliófilo Waldemar Torres, que gravara um CD com seus trabalhos, uma coleção fantástica de seus textos, chamada PALAVRA, em um de seus depoimentos dizia: -- “Eu sou, bem ou mal, uma pessoa realizada. Eu me realizei escrevendo. Se a minha máquina mecânica pifar o teclado amanhã, eu não vou ficar frustrado por que não posso escrever mais. O que eu tinha de escrever eu escrevi”, conclui Barbosa Lessa. Pois não tinha escrito tudo, ainda. Prezado amigo Fulano – Meio século de correspondência, sim, encerraria 50 profícuos anos de criativa e imorredoura vida literária, finda em 11 de março de 2002. Este é o Barbosa Lessa que homenageamos esta tarde/noite, por todos os dias cravejados de eternidade, por todas os motivos de arte e dignidade 3. BERNARDO TAVEIRA JÚNIOR - Patrono da Cadeira núm. 5 Bernardo Taveira Júnior nasceu na bonita e portuária cidade gaúcha de Rio Grande, no dia 5 de junho de 1938. Destacou-se em sua comunidade e no estado gaúcho como Poeta, teatrólogo e jornalista. Foi membro fundador da conhecida entidade cultural chamada Parthenon Literário. Foi professor durante boa parte de sua vida e deixou fama como um dos maiores expoentes do jornalismo de sua terra. Muito influenciado por seu pai foi para São Paulo, onde cursou a Faculdade de Direito, mas problemas comerciais o impediram de continuar esse projeto e foi então trabalhar no comércio do Rio de Janeiro. Mas era a literatura que realmente o atraía. Bernardo, havendo adquirido um preparo intelectual apreciável, dedicou-se ao magistério particular. Cultor apaixonado da língua alemã, traduziu e divulgou no Rio Grande do Sul importantes obras de Goethe e Schiller, seus autores preferidos. Mas é o teatro que forma a maior parte do conjunto de sua obra. Falecido em Pelotas, a 19 de setembro de 1892, foi um dos mais ardentes abolicionistas do seu tempo. Dizendo-se isso, toma vulto ainda maior sua postura de artista e homem justo. Publicou vários livros e muitos e variados artigos jornalísticos. Parte desta pesquisa foi feita, em parte, nos originais do livro do escritor e pesquisador Benedito Saldanha, chamado A Mocidade do Parthenon Literário, a ser lançado na próxima Feira do Livro de Porto Alegre, pela Editora Alcance. 4. ROSSYR BERNY - O EMPOSSANDO Nasci chamado Adão Rossir Berny de Oliveira, em São Gabriel/RS, em 30 de agosto de 1952. Sou nono filho de uma ninhada de 18 irmãos. Naquele tempo o termo era este mesmo ninhada -- por ser comum as famílias constituírem-se de dezenas de filhos. Desde 1973 resido em Porto Alegre, onde me formei pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em Jornalismo e Mestrado em Teoria da Literatura; Cursei a Faculdade de Formação de Professores na Faculdade São Judas Tadeu. Mas acabei mesmo sendo, por profissão, Editor. Há 18 anos fundei a Editora Alcance Ltda e recentemente adquiri a Editora Tchê! De 1976 a 2002 publiquei 15 livros de poemas e um romance: Entreguem o matador à família do morto – Brasil 500 danos. Tenho em preparo outro prosa, ficção histórica, com o título de “Os Varredores de Pássaros – A Guerra do Paraguai e outros extermínios”, ficção-histórica, narrando a completa destruição do Paraguai na guerra entre 1864 e 1870. Hoje em dia, em verdade, nem há mais pássaros para se abater. Mas pessoas, sim, são tristemente sacrificadas e varridas ao lixo. Em verdade o título poderia ser: Os varredores de homens. Por fim, em 2002, um livro/agenda chamado Armas Amores, reunindo o que entendo seja o melhor que produzi na Poesia. Traduzi cinco livros, em prosa e poesia, do Espanhol para o Português, as obras de Carlos Pereira Higgie, Nélida Marina Mafru e Rubinstein Moreira, uruguaios. Igualmente fui traduzido na Argentina por Perpétua Flores; no Paraguai por Victor Casartelli e, no Uruguai, por Rubinstein Moreira. Presidi, honrosamente, a Casa do Poeta Rio-Grandense, o Grêmio Literário Castro Alves e por oito anos foi Secretário Geral da Associação Gaúcha de Escritores. 5 - O GOSTO PELA LEITURA E PELO ESTUDO Preciso falar sobre a formação de meu gosto pela literatura: Um dos meus primeiros prazeres era acomodar-me na precária cama de menino pobre para poder viajar por países de sonhos através dos livros e dos gibis, sendo sempre mocinho a pôr bandidos em retirada. Quando menino. Quando adulto, algumas experiências notáveis: Uma contada pelo admirável acadêmico desta histórica casa. Mozart Pereira Soares. Ele contou em uma palestra que caiu de cama, profundamente febril, por ler sobre os primeiros degredados trazidos pelos portugueses e deixados abandonados nas florestas brasileiras recém descobertas. O que será daqueles coitados, imaginava e chorava o pequeno Mozart; Outro fato que me encanta é sobre o extraordinário mineiro/gaúcho, Guilhermino Cesar, que resistiu a todas as doenças e a longa idade. Somente morreu quando não mais conseguiu ler. 6. AS VÁRIAS FACES DO POETA a) O começo amoroso Senhoras, Senhores, conto-lhes uma história de amor. Uma bonita história de amor. Lá pelos 13/14 anos, na vila onde me criei, um correr de 25 casas, construídas lado a lado, do alto descendo em direção ao Rio Vacacaí, havia em duas casas, lado-a-lado, duas, digamos, moças de vida fácil. Fácil? As duas tiveram filhos na mesmíssima época, filhos sabe-se de que pais. Mas a verdade é que as moças precisam sair às noites para ganharem a vida. E as crianças? O que fazer? Quem cuidar? Todas as noites, após meus pais dormirem, lá fugia eu para cuidar das crianças, para que as duas saíssem mundo afora, a trabalhar, o que até conseguiam com alguma facilidade, tão belas eram. Eu até que cuidava bem dos anjos, trocava fraldas (estas fáceis e descartáveis de hoje? nem em sonho); fazia as mamadeiras, fazia arrotar, fazia dormir os anjos. Apenas me atrapalhava um pouco quando as duas choravam ao mesmo tempo; e sempre rezando para que meus pais não acordassem e dessem por minha falta. Mas deram. Poucos meses de aventuras, monumentais para um menino, saída da puberdade há não muito tempo. O quase horror deu-se lá pela meia madrugada, quando sempre voltava para casa quando elas chegavam. Eu saía, e voltava para casa pela porta dos fundos, abrindo uma pequena janela em forma de losango que eu deixava estrategicamente encostada. Então enfiava o braço direito, buscando a tramela da porta. Ouvi um grito e do lado de dentro e senti meu braço imobilizado. Era meu pai que, no escuro estava pronto para descer um golpe de facão, achando ser um alguém para roubar. Antes de descer a lâmina que amputaria o braço do menino, lembrou de que por uma razão qualquer levantara na madruga, e notara a falta do filho na cama. Não perdi este braço direito, mas ganhei uma boa surra. Embaixo das cobertas as lágrimas cessaram logo, pois os lanhados eram bem mais fracos que o forte cheiro de mulher que ora uma outra delas oferecia àquele guri. E já na tarde seguinte estava eu a atravessar o Rio Vacacaí para buscar-lhes lenha a que elas fizessem as mamadeiras, que cozinhassem para si próprias o pobre arroz, feijão e um pedaço de carne de segunda ou terceira. Eu quis ilustrar nosso encontro com este exemplo que espero, entendam, amoroso, respeitoso. Por isso, em mim, a presença da forte figura feminina. Claro que houveram muitos encontros e desencontros, amores, desamores, por estes caminhos. Mas sobretudo a entrega amorosa como lição de vida - a luta entre o ficar e o partir. Engraçado, mas sempre que digo este poema, não há como não lembrar, merecidamante, da Nádia. Mas... infelizmente vai-se a história em comum, fica o poema: medularmente dela acaso eu venha a doar material a transplante de medula a filho irmão amigo ou desconhecido antes se deverá verificar a compatibilidade do receptor com a mulher que amo sou todo tão medularmente dela que seu simples respirar altera meu batimento cardíaco acaso eu venha a doar sangue ou órgão a transplante de córneas coração fígado ou qualquer parte minha antes se deverá avaliar a compatibilidade do receptor com o fator rh da mulher que amo — por eu ser tão medularmente dela confesso exultante minha completa inexistência sem seu amor Em um outro momento este poema marcou-me bastante: bilhete deixado sobre tua cômoda estou indo embora neste bilhete vou com os ventos granizos eclipses que incendiarão este papel depois que leias depois que te assustes com ele ou era isso mesmo o que esperavas de mim? um bilhete gritando que vou! sem a fúria habitual das discussões de casais polícia, delegacia de mulheres vou mais do que pareço ir porque vou resignado em paz — quase em festa também triste serei fotossíntese ao inverso poluição de carros nos engarrafamentos buracos na camada de ozônio sinto-me o estragado relógio de deus que só marca noite noite noite deixando os dias os dias os dias perdidos no dia em que nos amamos estou indo embora neste bilhete arrastado por tempestades e estações para as estações escuras do arco-íris vou varado no peito pelas lanças dos pontos cardeais que me jogam pedaços aqui ali pedaços nas galáxias ainda secretas abandono a ferocidade do lutar abandono o front deponho armas ao inimigo e suplico o tiro de misericórdia estou indo embora e me levando comigo tristíssimo porque nem saudades de ti eu levo Tenho muitos poemas que exemplificam o amor, o encontro, em minha obra. Este é quase um clássico: matemática do amor conhecer-te foi amar-te 100% e pensar em ti 60 vezes por minuto tu estás em mim sempre, até nas coisas mais absurdas e sem nenhum sentido lógico. e deve ser assim o amor dos loucos e dos astronautas cedo me ensinaram geometria, álgebra, aritmética e trigonometria. aprendi a calcular o ângulo seno, o co-seno, o cateto e a circunferência, mas nunca pensei ser possível aprender algum amor matemático tu estás em mim 3.600 segundos por hora, 86.000 vezes por dia te recordo e te venero 604.800 vezes por semana penso em ti 60 vezes por minuto te quero 24 horas por dia e te amo 31.536.000 segundos por ano é uma divina loucura matemática e somente 4 loucos amariam assim: os sábios os matemáticos os poetas e os apaixonados Três lindos amores me ofereceram três lindos filhos: Rossano, Schariza e Dênis, por isso sou três vezes feliz e realizado no amor. E dos amores que não resultaram filhos, resultaram inesquecíveis lembranças para a vida toda. De tudo frutificou Poesia. Do Rossano, meu filho, com sua Marisa, frutificaram para mim, duas netas espetaculares: Eduarda e Fernanda. Ser avô, na flor da poesia e da prosa, isso sim, torna-me um homem imortal. b) O religioso/cristão Sou um homem sem religião, mas com Cristo profundamente arraigado no coração, sou um cristão. Nunca temente a Deus, porque meu Deus não castiga com grilhões, nem com chicote; não impõe medo. Meu Deus é meu amigo e meu Senhor. Por isso lhe tenho amor e respeito. Isso me vem desde sempre, sem dúvidas. Na época do quartel, como soldado antigo, eu recebia um pelotão para dar ordem unida, reunidos os soldados para marcha e exercícios. Ao invés de isso tudo eu os punha todos, à vontade à sombra de um frondoso cinamomo e fala-lhes de paz, de fraternidade humana, de poesia, e sobretudo lia-lhes trechos da Bíblia, destacando um glorioso e exemplar homem, chamado Jesus Cristo. O mais bondoso dos que passaram por este mundo terreno. deus está só os poetas herdaram de deus a missão de reescrever aos homens os seus poemas o criador ri por nada e como a última árvore do pomar também fica só e triste deus está só cristo peregrina na terra os santos estão carpindo a horta e correm nos outeiros de margaridas os pequeninos deus está muito só no céu maria seca roupas nos varais do arco-íris os anjos velam os poemas do mago quintana e pedro passa polindo a grande chave a solidão de deus é maior que a dos homens foram multiplicados ao número de grãos de areia da praia para multimultiplicarem-se à sua semelhança e deus ficou só sem imagem no espelho que criou c) A postura social Senhoras, Senhores: Porque a injustiça me persegue é que persigo a justiça. A justiça do Homem e a Justiça de Deus. A injustiça leva vantagem sobre mim, mas haverei de reverter este horror: Em 23 de abril de 1996, quando há apenas 10 dias eu chegara para tentar a vida em Porto Alegre, minha irmã, Maria Carolina Berny de Oliveira, é atropelada e morta em São Gabriel, quando, uma segunda-feira, após a Páscoa desce do ônibus frente à Escola onde era professora. Os doces -- que com seu minguado dinheiro comprara material e fizera centenas de doces para suas crianças -- ficaram espalhados no asfalto da BR 290. Em 11 de abril de 1981, meu pai é morto por um irresponsável que conduzia uma corta-e-trilha sem freios, em uma descida onde passava meu pai, conduzindo a carroça que, com ela, criou a todos nós. Um herói foi o meu pai, Ervandil Vieira de Oliveira. Uma outra tragédia, narrarei no final deste encontro. Talvez por isso tudo, e as dificuldades da vida me tenham tornado um homem amargo, amoroso, sim, mas amargo, também. Por vezes me pego pensando: Os meus olhos de pura bondade, os meus olhos sem pecado, perderam-se em que campo de moderna batalha? Em que guerra perdeu-se aquele menino puro e bondoso, que todas as meias-noite entregava aos seus pais, na cama, uma rapadurinha, como presente agradecido por lhe terem dado a vida. Aquele menino vinha de seu trabalho diário de engraxate o dia inteiro na Agencia Diana, em São Gabriel, e de seus estudos à noite no Colégio Fernando Abbott. O Social, em mim, foi sempre muito forte. Lembro que tínhamos um grupo de poetas, chamado MEP, Movimento Espaço Poesia. Éramos o Carlos Aguiar, o Joaquim Moncks, o Carlos Soares, o Cesar Pereira, a Maria da Graça, e eu. Tínhamos como lema "A poesia como instrumento de justiça social. Recitávamos nossos textos, em congressos, escolas, universidades, teatros, entidades culturais e – sobretudo, no Bric da Redenção, os domingos, além de praças e ruas... Um poema meu simboliza esta postura crítica frente ao mundo de desigualdades? Poeta força-tarefa – aliás, selecionado para, com outros oito poemas/poetas de nosso Estado, figurar na antologia brasileira, organizada pela Editora Scipioni, compondo o livro OFÍCIO DE POETA, que será distribuído em toda a rede escolar brasileira. E, pasmem com a tiragem do livro: 8 milhões de exemplares. poeta força-tarefa tc "" os dias e as dores dos dias cobram à exaustão o meu ofício: vim aos mundos ser poetas ainda que em passos recentes tenha sido fungo ou bactéria árvore lodo água montanha ou gramínea sou a poeira cósmica do big-bang manhãs e adormeceres rebentam-me os ouvidos pulsos e pulsares do peito me anunciam guerreiro a lutar pela salvação do homem impuro ou purificado tenho texto na testa em letra escarlate: venho às vidas e aos mundos ser poetas II é por fúria de justiça que amo o ser humano poeta de ofício zelo para que acordes em paz ao teu digno dia de trabalho e amor acaso me descuide de tanto zelo acordarás sem a honra do teu labor nem a amada no leito a acolher-te por isso a permanente vigília o verso e a voz em riste para iguais conquistas de todos compartilho do teu largo riso por estares feliz mas culpo-me acaso a felicidade não te venha III guilhotina estas mãos escrevinhadoras se elas não forem os poemas que te libertarão da miséria e das desigualdades animal furioso ou homem bom defendo com adagas de luz e força-tarefa a segurança da tua vida de justo IV os tempos e as vozes dos tempos rebentam-me os ouvidos cobrando os afazeres de meu ofício o cristo e os cães do peito gritamgritam para que eu te guarde: venho às vidas e aos mundos ser os teus poetas-de-guarda Às vésperas desta posse, como um desafio ao mundo e à razão, o governo americano reconstrói e expõe em um museu, a arma mais destrutiva da 2ª Guerra Mundial, o Enola Gay, avião que atirou a bomba atômica sobre Hiroshima, no Japão. A exposição no Museu Aeroespacial do Instituto Smithsonian, em Washington tem deixado o mundo indignado. A relíquia bélica será mostrada ao público a partir de 15 de dezembro. No dia 6 de agosto de 1945 o Enola Gay lançou sobre a cidade portuária de Hiroshima uma bomba atômica apelidada de "Little Boy". A bomba deixou mais de 140 mil mortos e dezenas de milhares de pessoas desfiguradas e afetadas por doenças provocadas pela radiação, que, mais tarde, elevaram o total de mortos para mais de 230 mil. O bombardeio foi realizado num dia de sol, às 8h15. Em seguida, o avião foi usado para fazer o reconhecimento das condições climáticas antes do bombardeio atômico de Nagasaki, que matou mais 70 mil pessoas – somando a barbárie de 300 mil pessoas. Agora é de se perguntar: Também estarão em exposição fotografias do horror e da devastação atômica, as fotos dos 300 mil mortos. Precisamos pensar sobre a história de um menino bélico, dono da bola, dono das camisetas e dono do campinho de futebol. Ambicioso este menino. Quer ser. Ou já é? O dono do mundo. O menino bush quer petróleo, vai onde tem, joga bombas, destrói tudo e traz o petróleo que deseja. Como se sabe, há muito os seus antecessores já lançam suas garras de água imperialista sobre a Amazônia brasileira. E o que fazemos? Nada. Não contem com o meu silêncio, não contem com minha concordância. O que, ou quem desejar dobrar minha coluna terá de fazê-la à força. Mas será necessário um peso muito maior que o peso do mundo; terão de somar a isso todo o peso de nosso sistema solar em meus ombros, quiçá do universo. Ainda assim não vergarei, não vergarei porque o peso do amor é muito maior, a força do amor é maior que a força da cobiça, do poder, da desigualdade... Por isso não vergarei, não vergaremos ao peso da injustiça e da miséria. Lamentamos profundamente o atentado e as mortes ocorridas em 11 de setembro em Nova Iorque. Um horror não corrige o outro. Mas precisamos lembrar que aquela terrível destruição de Hiroxima, Nagasaki e em muitos tempos passados, são estilhaços das ações americanas do passado que ferem de morte o presente. Agora há pouco morreu em atentado terrorista, também condenável sob todas as formas, o Diplomata brasileiro, alto dirigente da ONU, Sérgio Vieira de Mello, em represália à invasão americana no Iraque. Ficamos a lamentar a triste perda. Pensamos mais: Não houvesse a invasão do Iraque, não haveria ataque à ONU e não teríamos perdido nosso grande homem, arquiteto da paz e da concórdia, no mundo inteiro: Sérgio Vieira de Mello. 7 - O MOMENTO FINAL DO DISCURSO Encerro este discurso, em verdade um sincero rosário de humanas confissões, tentando justificar o porquê de tanta acidez, tanta dor e rebeldia. Vou confessar-lhes uma história, das mais cruentas e sujas que conheço. Quarta-feira passada, dia 20 deste agosto desditoso, neste país rico, mas com população miserável, uma envelhecida mãe em Uruguaiana, doente, às 9 horas da gélida noite, manda seu filho varar a madrugada na fila do SUS para tentar marcar-lhe uma consulta, sabe Deus lá para quando. José Luiz, um desempregado como milhões neste país rico e de população miserável, 43 anos, com seu lanche, refrigerante e abrigo para enfrentar a madrugada fria -- toma o caminho das desditosas filas que se proliferam por este Brasil, sempre em benefício dos senhores poderosos e sempre em sacrifício das gentes comuns, pacíficas, ordeiras, cordatas - subjugadas a ferros, fuziladas nos paredões invisíveis dos dias risíveis. Faltou contar-lhes que este homem de 43 anos era um poeta, escrevia seus versos com a dificuldade dos homens pouco letrados, mas com a experiência de vida que não se aprende nas universidades. Transformava-se em um deus olimpo, um sábio, quando declamava seus versos de rima pobre, mas com a grandiosidade de sentimentos divinos. Razão de muitas medalhas conquistadas em concursos declamatórios, que contrastavam por seu brilho, entronizadas na precaríssima moradia em Uruguaiana, ele, pobre homem e pobre menino nascido e crescido na histórica São Gabriel, a Atenas Rio-Grandense. Ele, José Luiz, meu sobrinho, filho de minha irmã, Elisabete, nossa amada Lili. a mãe de um filho assassinado a caminho de 12 horas de vigília para conseguir um a ficha para que sua mãe conseguisse uma consulta médica de, quem sabe, com sorte, três minutos. Depois, com a receita em mãos, passaria na farmácia do Estado e por certo a medicação estaria em falta. Faltou contar-lhes que aquele homem sofria de epilepsia, e as ocasiões de desmaios não eram incomuns. Ao passar pela Vila Militar de Uruguaiana sentiu-se mal e entrou em um pátio, bateu a uma porta para pedir ajuda. Confundido com ladrão, ainda que só armado de um lanche, uma lata de refrigerante, e um abrigo para passar a noite no frio - foi preso por três soldados da Polícia do Exército, que chamaram as duas outras polícias. Prenderam o poeta, bateram no poeta, mataram o poeta. Revoltante esta história de minha irmã, de minha família. Às 8 horas da manhã, ao invés de receber um papel com a consulta marcada recebe o corpo do filho morto. Não temos conseguido convencer nossa amada irmã que a morte chegará para todos, em algum momento. Ela jura levar para o túmulo a culpa de ter pedido ao filho que fosse passar a noite numa fila do SUS para conseguir uma consulta; culpa-se como se fosse ela a agressora a bater no filho até a morte. Infame aquela justiça que não condenará nenhum agressor. Somente aquela mãe será condenada pela morte do poeta que mandara para uma fila infame do SUS. Infames os matadores que continuarão impunes, como impunes continuam os que mataram minha irmã e mataram meu pai. Perdoem se não consegui ser o homem amoroso e esperançoso que prometi ser lá, no início deste discurso. Mas minha felicidade e conquista literária é enorme, porque todos os meus amigos estão aqui presentes, fazendo-me um homem feliz e realizado. E, para que esta tristeza toda tenha valido a pena, todos voltaremos para casa, buscando um mundo mais justo, muito mais justo. Se de tudo o que sou, o que fui restar um poema que seja, a caminhada terá sido frutífera. Retomemos, agora, nossa jornada diária, com Deus e com os olhos brilhantes de renovada esperança -- mas com os punhos cerrados contra a servidão e contra a injustiça. Encerrar dizendo o poema: invernos não durmo a noite inteira pensando nos pássaros ao relento o vento sopra-os aos empurrões de um galho a outro dos galhos ao chão não durmo a noite inteira pensando nas pessoas ao relento o vento sopra-as aos empurrões de uma calçada a outra de um desabrigo a outro maior (alguém não dormirá pensando em mim perdido na fúria dos vendavais sem âncora e sem luz?) meus abraços e meu amor universal ressuscitarão das tempestades os pássaros e a humanidade à necessária calmaria dos portos do coração agora descansa e dorme sob a vigília de deus o sono quente dos abençoados
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