18. CONSTRUTORES DE PRECIPÍCIOS - 2006

    

Em Construtores de precipícios, que celebra trinta anos de trabalho, está sempre presente uma voz inconfundível, com o seu desespero conceitual, a sua dicção afiada e fragmentada a que o tempo conferiu um esmero cada vez mais visível e ostensivo, e uma laconicidade crispante.

            A presença de versos que são enumerações ordenadas ou caóticas confirma esse teor lacônico, tão grato à poesia telegráfica cultivada pelos modernismos europeus e galhardamente adotada pelo modernismo brasileiro.

            No longo exercício poético de Rossyr Berny, nesse lirismo contundente, raras vezes aberto para a esperança e a felicidade, emerge a evidência rimbaudiana de que a realidade é rugosa. Esta poesia nada tem de fluida ou correntia; avança entre saliências e meandros, entre geadas e nevascas que embranquecem a plumagem dos pássaros e espalham frutos não colhidos.

Lêdo Ivo (*)

(*) Da Academia Brasileira de Letras

 

 
 

Muitas centenas de poemas, talvez milhares, Rossyr Berny deve ter escrito para chegar ao sumo desses mais de 163 selecionados para esta obra que tão bem o apresenta como um dos mais fecundos poetas brasileiros.

Construtores de precipícios reúne onze livros, afiados até a sua extrema agudeza. “Onze partes” corrigirá o leitor, iludido (ainda bem) pela prestidigitação de um poeta que a cada seção extrai uma unidade temática e um olhar sempre de viés sobre o mundo (porque em busca do ângulo mais inusitado) e de frente (porque buscando o enfrentamento dos temas que perturbam mesmo aquela poética em linhas mais sociais). A questão é que tais unidades, cada uma coesa, extinguida na sua última quintessência, compõem obras isoladas, que Rossyr convoca para oferecer-nos um panorama único: trinta anos de uma carpintaria poética que busca, a cada novo título, renovar-se.

A força de sua denúncia do mais íntimo (radicalmente à sombra do mais exposto) aflora já no primeiro bloco de poemas, no trecho “Perdemos há muito / braços para abraços e aplausos”. Consideração grave se a atenção do leitor recair sobre o aspecto essencial do membro superior humano como algo destinado a construir, antes de qualquer distração – ela também, sim, necessária.

Salvação

A lírica moderna podou toda sua extrema candura e armou-se de cristais que, embora a façam resplandecer, gritam sua indignação e apontam, implacáveis, verdades de condenados a uma ciência que nos conduzirá à morte. Mesmo em vida. “Dêem chance de contato / para a salvação terrestre // Ainda que sejam zelos / de deuses para amebas”. O planeta perdeu seu verniz de mundo maiúsculo e tornou-se barco à deriva, carregando náufragos numa nau onde os remos são desencontrados.

Dessa condenação, exatamente desse sentenciamento a que o homem não escapa por sua própria consciência, extrai Rossyr um humor amargo, como o do poema “Para morrermos de vergonha”, onde o poeta declina de qualquer tentativa de plantar uma semente, nem que seja de mínima esperança – uma vez que o presente, em vez de brotar, moralmente mingua.

O poeta sente como ninguém nunca sentiu a microscopia do momento: “Cada instante deslizado na pele”. Eis um retrato duro do tempo, tempo que o autor de Construtores de precipícios chama de “antitempo”. E poderia achar palavra mais adequada, se a cada passo nos são extirpados espaço e circunstância?

E para se salvar, busca a aguda lucidez de enxergar não apenas o abstrato, mas a concreção intempestiva do frio real, que o dobra (a este real sem fantasmagorias, o mais inflexível dos reais) sobre si mesmo, mas não o impede de identificar o escuro mais escuro das noites, “cortando-me os pulsos”. Invernias assim matam, pela ausência de calor físico, qualquer ação mais calorosa, mesmo as morais, sociais, mesmo aquelas que procuram a labareda que seja capaz de iluminar uma decisão de mínima doçura e intensa coragem.

De madrugada, numa rodoviária (no poema “Kafkiano”), há o espanto com a amanhã se fazendo. O poeta se sobressalta, sem demonstrá-lo a não ser em seus versos quase diretos, certeiros como quem busca um alvo (nós).

A rotina não perdoa. O poeta não perdoa o dia-a-dia se este esconde o dia, pleno mesmo em seu limite de dia, 24 horas apenas e gestos repetidos. Mas o cotidiano cruel, a forjar na busca de felicidade um neologismo que a condena, palavra traiçoeira pelo início ameaçador no que tem de feroz (“fericidade”), feroz ou ferina. Tanto faz, o que é duro de constatar.

Então, a que salvação se aspira?

Ora, exatamente essa que o poeta atinge em cheio, mesmo exaurido dos eflúvios da existência, capaz de engolir o dia sem digeri-lo nem vomitá-lo, numa imagem forte.

Salvação? Sim. Salvar-se é não se sentir incapaz ou se sentir constrangido a um sintoma grave. E o sintoma não vem. A não ser em forma de poema. Rossyr resiste.

 

Vôo condenado

No poema “Aberta temporada de caça”, o desfecho não poderia ser mais patético: “Há desovas sem nenhuma chance de vôos”. É o poeta preparando o leitor para o que há de vir: e o que há de vir é o melhor do livro. Leia, releia e releia ainda outra vez. E recite aos amigos: “não temos a inocência do verme / – que nem se sabe verme”. Nesse poema (“Nem ao nível das serpentes”), sob todos os aspectos perfeito na sua implacabilidade, nossa natureza é posta à prova. Há, em diversos níveis, a cruel beleza do corajoso gesto do poeta a avisar: nem é bom pensar – o poema, isto é, a realidade, são incendiários, e pausas não são esperas. Conselho: pare alguns minutos a cada parte deste livro-flagrante – o leitor, afinal, também precisa respirar.

Mais adiante, em “Vestida de napalm”, Rossyr, ou seu narrador, avisa: “– dou-te notícias do mundo neste poema”.

“Voltar a ser pássaro” conta, num tom de confissão arrependida, que o poeta já foi ave e agora, humano, precisa melhorar em humanidade para retomar a condição de pássaro. Tem amado a humanidade em sua dor e sabe que esse castigo pode transformar a vilania em ressurreição. Renascerá? E transformado?

Possivelmente não. O mundo não lê milagres. Mas o poema “Salário-mínimo brasileiro” é, em poesia, um pequeno milagre. Vale ser reproduzido e posto na parede. Como um aviso dos mais valiosos.

 

A estratégia de Lúcifer

A guerra é um dos temas mais presentes nessa antologia onde o homem, a quem estamos acostumados a ver cantar suas dores, canta aqui as dores alheias – e, por isso, mais suas ainda. Se fossem apenas dele, particularíssimas, poderia controlá-las. Ou suicidar-se. Mas engolfando o planeta, incluem-nos sem deixar de incluí-lo. E somos todos condenados. E somos todos munição. Esta última, expressão exata de um dos poemas do livro.

Uma amostra da síntese onde a poesia, embora lide com material bélico, não perde de vista a beleza de sua forma e de sua voz: “madrugada amortalhada / não mais orvalha lírios”. E, sendo Rossyr um artista seminal na direção da justiça entre os homens, não surpreende que proteste: “Inútil o poema / acaso não cegue lâminas / acaso não rebente em frutos”.

Tantos são os rumos seguidos por tal poética, que cabe enumerá-los: o amor, a política, a História, e até o humor. Um exemplo: “queda-de-braço”, que vale ser citado inteiro: “Meço forças comigo / A mão direita e a esquerda // Meu peito e eu / meu coração e eu // a perna direita e a esquerda // Meço forças comigo / Meus ombros e eu // No escuro no sonho no espelho no bar / homens se encaram e se decifram // Meço forças com Deus / Queda-de-braço / Olho na pupila do olho // (Confissões e acertos de contas) // Quem chorar primeiro / paga a cerveja dos dois”.                 Claro que é um sorriso doído, o de quem sabe o tempo todo, desde um dos poemas inaugurais desta obra madura (“Curriculum vitae”): “Dispo o manequim dos anos / com fúnebre sensação / de vestir meus mortos”.

 

Amor tsunami

O poeta, que no percurso do livro esgrima, digladia-se (ou imola-se?) com a besta bélica – encontra intervalos nos campos de batalhas para a alcova: "Dos homens que sou / o menos amoroso é todo tão teu / que será até de nem eu mais ser meu". Sua doação é sempre recompensada: As mulheres que amou "Somadas / plantaram-me paraísos / Ao mais leve toque / me abrem róseos céus".

Tsunamis combalem a Ásia e seu coração. Busca reagir, auxiliar, também sente abandono: "Aos sobreviventes do pavor /envio roupas, cestas básicas, água potável / Mas sacrificar o que mais a ti? / De meu amor fazes cinzas e insobrevivências"

Poderoso e avassalador como o amor que oferece é o mesmo que sente o impacto: "Por seres bomba e tsunami / ao recolheres teus braços / em furioso repuxo e abraço medonho /redobras a devastação sobre a Tailândia / Sobre a Indonésia Sri Lanka Índia Malásia África /Sobre mim // Meu amor hiroxima, meu amor tsunami". E estamos conversados...

 

            Trinta anos de poesia; imagine-se quantos de vida (o que transcende as cronologias). Vida transfigurada, poetizada, isto é, multiplicada: como toda vida de poeta acaba sendo, uma multifacetada vida dentro da própria vida de homem. A vida humana, rotineira, é insuficiente para a do poeta que carrega esse homem, poeta que sempre gera irmãos gêmeos desse homem que o veste, homem destinado a escrever eternamente porque conduzido pelo poeta. Já tem trinta anos essa eternidade.

 

Paulo Bentancur

Escritor - Poeta - Crítico

Rio de Janeiro - setembro de 2006

 
 

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